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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Dia de Mia [Parte 1]

Avalon Thomas Saliot
Mia acordou sonolenta às seis horas da manhã. Escovou os dentes antes de levar seu croissant insosso à boca. Ela gosta do gosto amargo das coisas ao se misturarem com o mentolado da pasta de dentes vencida. O café estava frio como o tempo que fazia lá fora, ou lá dentro de si mesma. Os olhos cansados carregavam bolsas de água e de tempo. Não é mais a mesma de cinco anos atrás. Nem de cinco meses. Permaneceu a mesma por cinco minutos. Cinco longos minutos de uma inércia atormentadora. A chuva congelou a janela de sua alma. Ela estava cega e enxergava os brancos das lacunas deixadas pelo vento que invadiu seu quarto escuro. Estava sem ar. O afago de um sorriso carimbava um quadro antigo pintado por um artista triste qualquer. Um sono leve pesava em seus ombros caídos e desnudava sua pele encharcada de suor. O frio queimava a febre na pele límpida. Era manhã, e a vida adormecia dentro dos sonhos tortos dela.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A Mulher e o Homem [Parte 2]

Fabian Perez; Wondering at las Brujas
Ele sentiu uns poucos pingos molharem-lhe  os cabelos perfeitamente despenteados. Ela andara até a porta e, como quem susurra um segredo secular, convidara-o para entrar e tomar uma dose de alguma coisa que lhe esquentasse o corpo já encharcado com á agua da chuva que engrossara em segundos poucos.
-Não sei se posso- disse o homem sem rumo. -Não sabe se pode, ou não sabe se quer?- retrucou a mulher com um olhar tão profundo como uma bola de cristal num quarto escuro. -Vamos, venha. Eu lhe ofereço um gole de meu vinho e alguns minutos de um tempo que eu não tenho.
O homem então se levantou e foi andando em direção à porta do bar. Entrou e olhou fixamente para os homens..alguns sérios, outros tristes, outros um tanto indecifráveis. Quis sair, quis ir para casa e assistir alguma coisa repetida na televisão. Se é repetida não precisa prestar tanta atenção e tentar entender. Sorriu para a mulher de preto. A mulher não sorriu de volta, não ofereceu-lhe sequer o brilho de seus dentes pequenos. A mulher sentou e fingiu que não conhecia o homem perdido. O homem sentiu tanta raiva e pensou que tudo aquilo estava errado. Que Ele não era aquilo que estava vivendo naquela noite. Sentou na mesa do bar, ao lado da mulher. Levantou, pegou o chapéu e fez um movimento para ir embora. A mulher nada fez. Ele esperou uma reação. Ele queria ser amado, nem que fosse de mentirinha. A mulher virou de costas.O homem, enfurecido, decidiu ficar. Pediu uma taça de Veuve Clicquot para ele e meia taça de Chateau Mouton Rothschild para ela.
-Troque! Chateau de Beaucastel. Quero a taça inteira. Obrigada.- O homem olhou perplexo. Havia um tom de fúria em seus olhos, mas havia também a admiração...e o desejo.
-Você sabe o que quer! Exclamou o homem, sem controlar sua expressão de espanto e desejo. A mulher, sem olhar para o homem retrucou: - Eu não sei o que eu quero, o que eu quero é que sabe de mim. Assim vivo, ou finjo viver...todas as noites.
O homem se calou por um instante. Engoliu o espumante como se fosse água. Desejou não ter entrado, desejou não ter conhecido aquela mulher. Desejou ser outra pessoa como essas que andam de dia e carregam sonhos nos bolsos fartos...

Carolina Morais

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A Mulher e o Homem [Parte 1]

A casa não mais abrigava a mulher sozinha. A varanda virara bar e o bar virara casa por uma única noite perdida (ou achada, talvez). A mulher caminhou em passos longos ao banheiro. Vestiu um vestido negro de seda. Prendeu os cabelos como lhe aprazia, de qualquer jeito. Mechas soltas caíam-lhe pela nuca embebida em um perfume barato. O colar fazia-lhe uma marca verde em tono do pescoço. A jóia barata dançava em sua pele manchada. E ela continuava linda. A pele era doce e suave. Parecia uma mulher sem máculas. De manchas, apenas as deixadas pelas pérolas baratas que ganhara, ou comprara...as roubara talvez. O vestido lhe vestia em um tom prototipicamente perfeito.
Fabian Perez, Letizia.
Caminhou em direção ao balcão. Nada pediu. Um moço ergueu uma taça e veio oferecer-lhe um líquido suave. A moça aceitou com um sorriso que em nada demonstrava felicidade. Tomou o vinho como quem toma um copo de vinagre azedo. E gostou. E sorriu. E deixou uma lágrima cair-lhe vagarosamente, como quem quisera sofrer por algo que não imaginara o que era. De longe viu um homem, sentado na calçada do bar a pensar em algo que não se conseguia decifrar. Ele parecera sofrer. Ele era tão bonito. Alvo, loiro e alto. E sozinho. Era o homem mais sozinho que a mulher já avistara em poucos meses, ou anos. Ou, talvez, em sua vida... vazia como seu ventre. Era um homem tão incomum. E continuava a ser um homem, sozinho e sentado numa calçada suja fedendo a lixo e chuva.

Carolina Morais

sábado, 16 de outubro de 2010

Chanel

Fabian Perez; Rojo Sillon.
Acordou e viu que algo não estava de acordo consigo mesma. Tomou um banho de gata, comeu três bolachas encharcadas de mel e alho. O gosto lhe fazia bem. Colocou um vestido qualquer e um suéter que enfeitara o guarda-roupa desde sua mocidade. Ainda lhe cabia bem. Tomou uma xícara de café, frio e velho. Comeu duas uvas amargas e escovou os dentes com a força e a destreza de quem engraxa os sapatos, ou o chefe em uma repartição pública monótona. Calçou um sapato preto. Alto. Pegou a bolsa de fita e foi ao salão de beleza mais próximo de casa. Pediu um corte, e um copo com gelo. Tirou uma garrafinha de dentro da bolsa de fita e despejou todo o líquido amargo dentro do copo. -Corte. Essa não sou eu. A cabeleireira cortou-lhe mecha por mecha. Queria mesmo que lhe cortasse algo por dentro, ou que lhe arrancasse o coração inútil. -Chanel! Pagou-lhe o montante e voltou para casa. Olhou-se no espelho. Sentiu falta dos cabelos espetando-lhe as costas antes nuas. Sentiu a brisa em seu pescoço. Sentou na poltrona da sala e, de súbito, percebeu que ainda era a mesma mulher e que, agora, o vento enforcava-lhe...lentamente.

Carolina Morais

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Homem

Fabian Perez, Waiting for the Romance to Come Back I.
Ele era cheio de sonhos. Sua criatividade um dia consquitaria um mundo inteiro. Loiro, alvo, de beleza ordinária (se é que a beleza pode ser ordinária). Cheio de si. Chegou em casa, um dia, de um dia cheio de desavenças com o seu ser. A transparência da água intrigara-lhe o interior. A falta de gosto queimava-lhe a língua e os ossos chamados dentes.Questionava sobre o tempo e sobre a vida que vivia. Algo lhe faltava. Não era o amor de uma mulher nem a vontade de uma. Não lhe faltavam amigos ou comida.Não lhe faltava o Cuvée Dom Pérignon, religiosamente, às sextas, na boca da noite. O gosto suave de nozes e avelãs lhe aprazia. Era um prazer só dele. Um homem quase feito, cheio de defeitos. Um homem que não colecionava armaguras para contar. Que não ostentava saudades para chorar. Um homem que sentia que algo lhe faltara. Talvez o erro, talvez uma vida que não fosse a dele. Talvez o tempo, talvez um filho que nunca geraria por fruto seu.
Era, então, um homem seco.

Carolina Morais

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A Varanda

Fabian Perez; Balcony at Buenos Aires IV
Debruçou-se no parapeito descascado da varanda. Ventava um vento frio e bom. Ela pegou um livro sobre qualquer coisa da vida, sobre alguém que acha que entende de gente, sobre alguém que finge ser feliz através de uma experiência que poderia ser de alguém qualquer, não dela. Ela acendeu um cigarro de canela e alcançou um Moscatel de Lagos, doce e licoroso. Derramou delicadamente na taça limpa, alva. O som do vinho a cair na taça soou como música. Ouviu o vento de longe. Uma folha caiu em seu colo. Um gole desceu pela garganta, antes seca, antes cheia...de nós. Sentiu um arrepio e um aperto no peito. Sentiu saudades da família que não tivera, do livro que não escrevera e da árvore que não plantara. Quis ser ídolo um dia. Quis lutar. Desistiu e tentou viver. Jogou o livro no chão e olhou para a obra arregaçada na lama, sozinha. Ali era o seu lugar. Tragou o que tinha para tragar, bebeu  que tinha para beber. Iria novamente para a cama, sozinha. Amanhã? -Um novo dia, talvez. E a varanda continuaria a soprar folhas secas em seu colo vazio.

Carolina Morais