Mostrando postagens com marcador Narrativas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Narrativas. Mostrar todas as postagens

domingo, 1 de maio de 2011

2 Anos

Romero Britto. First Love,2008.

A menina aceitou o convite do rapaz que há tempos não vira.
Ele a buscou em casa, saíram para dançar. Tudo parecia igual a tudo ao que ela estava acostumada. Não se envolver parecia certo. Tomaram um chopp, dois. Ao som de rock bom eles dançaram por toda a noite. Um beijo selou um encontro sem planos. A partir daquele momento o destino parecia sorrir para eles. Era um  gostar, um precisar, um querer, um sentir e, por fim, um amar. E, durante tanto tempo um amor que se solidifica e cresce. Um amor diferente. Um amor juvenil, mas verdadeiro e experiente. Simplesmente amor que vem de dentro deles.

Carolina Morais

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Sobre as primeiras horas do dia

     As primeiras horas da manhã são, definitivamente as mais gostosas.
É justamente entre as 4 horas da madrugada e as 6 horas da matina que sinto a melhor acomodação em minha cama. É quando meu lençol já se encontra moldado à minha posição tão variante da longa noite. É quando sinto um friozinho por fora, e um quase morno por dentro. 
Joan Miró; Gift of Mary and Leigh Block, 1988
     4h30, acordo com a bexiga cheia. Levanto e vou em direção ao banheiro. Ainda com um olho fechado e o outro semicerrado. Volto para a cama meio que sem sono, meio que com sono todo...A partir daí nasce a consciência de que vivencio aquela experiência mágica debaixo das cobertas.
     5h30, acordo novamente. Dou uma olhadela para minha janela. Vejo o céu perfeito e sua mistura inebriante de cores. O céu é rosa, laranja, amarelo e azul. Um degradé sem igual, um presente divino.É nessa hora que passarinhos cantam sua beleza por suas vozes invejáveis e suas asas contrastando com o céu multicor.
     6h30, meu despertador toca. Eu acordo e o desligo. E deito mais cinco minutos que me fazem sentir um repouso equivalente a uma hora. Abro os olhos, mas não me movo. É bom mover apenas os olhos, é como se eu esticasse tudo dentro das bolas de vidro que ficaram tanto tempo alheias à realidade a seu redor.
     7h, já devo estar pronta para sair. Não existe mais magia nem conforto. O sol aparece e queima nossos corpos.Os raios agressivos invadem minha janela e iluminam meu quarto. Nessa hora, fecho a cortina e parto para o meu dia. Minha alcova, agora, descansará de mim.

Carolina Morais

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A Mulher e o Homem [Parte 1]

A casa não mais abrigava a mulher sozinha. A varanda virara bar e o bar virara casa por uma única noite perdida (ou achada, talvez). A mulher caminhou em passos longos ao banheiro. Vestiu um vestido negro de seda. Prendeu os cabelos como lhe aprazia, de qualquer jeito. Mechas soltas caíam-lhe pela nuca embebida em um perfume barato. O colar fazia-lhe uma marca verde em tono do pescoço. A jóia barata dançava em sua pele manchada. E ela continuava linda. A pele era doce e suave. Parecia uma mulher sem máculas. De manchas, apenas as deixadas pelas pérolas baratas que ganhara, ou comprara...as roubara talvez. O vestido lhe vestia em um tom prototipicamente perfeito.
Fabian Perez, Letizia.
Caminhou em direção ao balcão. Nada pediu. Um moço ergueu uma taça e veio oferecer-lhe um líquido suave. A moça aceitou com um sorriso que em nada demonstrava felicidade. Tomou o vinho como quem toma um copo de vinagre azedo. E gostou. E sorriu. E deixou uma lágrima cair-lhe vagarosamente, como quem quisera sofrer por algo que não imaginara o que era. De longe viu um homem, sentado na calçada do bar a pensar em algo que não se conseguia decifrar. Ele parecera sofrer. Ele era tão bonito. Alvo, loiro e alto. E sozinho. Era o homem mais sozinho que a mulher já avistara em poucos meses, ou anos. Ou, talvez, em sua vida... vazia como seu ventre. Era um homem tão incomum. E continuava a ser um homem, sozinho e sentado numa calçada suja fedendo a lixo e chuva.

Carolina Morais

sábado, 16 de outubro de 2010

Chanel

Fabian Perez; Rojo Sillon.
Acordou e viu que algo não estava de acordo consigo mesma. Tomou um banho de gata, comeu três bolachas encharcadas de mel e alho. O gosto lhe fazia bem. Colocou um vestido qualquer e um suéter que enfeitara o guarda-roupa desde sua mocidade. Ainda lhe cabia bem. Tomou uma xícara de café, frio e velho. Comeu duas uvas amargas e escovou os dentes com a força e a destreza de quem engraxa os sapatos, ou o chefe em uma repartição pública monótona. Calçou um sapato preto. Alto. Pegou a bolsa de fita e foi ao salão de beleza mais próximo de casa. Pediu um corte, e um copo com gelo. Tirou uma garrafinha de dentro da bolsa de fita e despejou todo o líquido amargo dentro do copo. -Corte. Essa não sou eu. A cabeleireira cortou-lhe mecha por mecha. Queria mesmo que lhe cortasse algo por dentro, ou que lhe arrancasse o coração inútil. -Chanel! Pagou-lhe o montante e voltou para casa. Olhou-se no espelho. Sentiu falta dos cabelos espetando-lhe as costas antes nuas. Sentiu a brisa em seu pescoço. Sentou na poltrona da sala e, de súbito, percebeu que ainda era a mesma mulher e que, agora, o vento enforcava-lhe...lentamente.

Carolina Morais

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Homem

Fabian Perez, Waiting for the Romance to Come Back I.
Ele era cheio de sonhos. Sua criatividade um dia consquitaria um mundo inteiro. Loiro, alvo, de beleza ordinária (se é que a beleza pode ser ordinária). Cheio de si. Chegou em casa, um dia, de um dia cheio de desavenças com o seu ser. A transparência da água intrigara-lhe o interior. A falta de gosto queimava-lhe a língua e os ossos chamados dentes.Questionava sobre o tempo e sobre a vida que vivia. Algo lhe faltava. Não era o amor de uma mulher nem a vontade de uma. Não lhe faltavam amigos ou comida.Não lhe faltava o Cuvée Dom Pérignon, religiosamente, às sextas, na boca da noite. O gosto suave de nozes e avelãs lhe aprazia. Era um prazer só dele. Um homem quase feito, cheio de defeitos. Um homem que não colecionava armaguras para contar. Que não ostentava saudades para chorar. Um homem que sentia que algo lhe faltara. Talvez o erro, talvez uma vida que não fosse a dele. Talvez o tempo, talvez um filho que nunca geraria por fruto seu.
Era, então, um homem seco.

Carolina Morais

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A Varanda

Fabian Perez; Balcony at Buenos Aires IV
Debruçou-se no parapeito descascado da varanda. Ventava um vento frio e bom. Ela pegou um livro sobre qualquer coisa da vida, sobre alguém que acha que entende de gente, sobre alguém que finge ser feliz através de uma experiência que poderia ser de alguém qualquer, não dela. Ela acendeu um cigarro de canela e alcançou um Moscatel de Lagos, doce e licoroso. Derramou delicadamente na taça limpa, alva. O som do vinho a cair na taça soou como música. Ouviu o vento de longe. Uma folha caiu em seu colo. Um gole desceu pela garganta, antes seca, antes cheia...de nós. Sentiu um arrepio e um aperto no peito. Sentiu saudades da família que não tivera, do livro que não escrevera e da árvore que não plantara. Quis ser ídolo um dia. Quis lutar. Desistiu e tentou viver. Jogou o livro no chão e olhou para a obra arregaçada na lama, sozinha. Ali era o seu lugar. Tragou o que tinha para tragar, bebeu  que tinha para beber. Iria novamente para a cama, sozinha. Amanhã? -Um novo dia, talvez. E a varanda continuaria a soprar folhas secas em seu colo vazio.

Carolina Morais

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Canção

Acordou cedo com ares de novo dia. Abriu os olhos cansados. Caminhou até o espelho e penteou o que sobrara dos seus cabelos negros.
Bocejou uma canção de ninar.
Sentiu a brisa fria banhar-lhe os ossos dos dedos dos pés. Beijou as flores do campo.
Esquecera dos outros ao seu redor. Esqueceu do mundo que a abraçara. Deitou em um movimento suave. Dormiu um sono de anjo. Sonhou uma vida de vento. Adormeceu nos braços da noite.
Ela então desejou dormir para nunca mais acordar.
Carolina Morais
Renoir; Sleeping Girl,1880.