quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Medo

O medo revela a derrota
The Old Guitarist
Pablo Picasso

Oil On Panel, 1903
tinge de preto o desespero,
desencoraja a alma,
Rasga a pura seda
carcome a carne fraca.

O medo transcende o orgulho
surge em meio ao tudo
esconde-se no nada
encobre o que somos em essência
Embranquece pensamento.

O medo me tira pedaço
arranca o olho bom e,
vagarosamente,
corta cada víscera viva
esmagando meu estômago
vazio.

O medo surge na noite
cresce dentro da gente
foge das rezas
apaga as velas
Congela o horizonte.

O medo realiza o covarde,
E mata o corajoso
E desfaz sonhos gigantes
E desfaz mundos perfeitos
E desfia laços dados
com o certeiro amanhacer.

Carolina Morais

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Corrosão

Manet: Gare St.
Lazare, 1873
Busco sentido no vão de palavras mortas
Aprisiono-me no vão de tuas grades tortas

Estou entregue aos teus caprichos esquecidos
em palavras doces de afago
Não ditas mais

Encontro-me presa
Encontro-me do outro lado da vida

Vejo tudo diante de mim:
Vejo a vida que passa ligeira
Vejo o tempo desperdiçado,
as palavras poucas,
muitas
mudas.

A falta delas
E falta que me faz ouví-las

E num sussuro brando
Assopro meu resto de tempo
Cuspo meus restos de sonho na grade:
Vejo então a corrosão

Liberta novamente!
Faço isso tudo,
tudinho...

sem pressa
sem culpa
sem peso...


diariamente.

Carolina Morais

domingo, 26 de setembro de 2010

Domingo

Landscape under a Stormy Sky by Vincent van Gogh
As gotinhas tilintam
no quase-chão azedo do meu quarto
A manhã que passa por tarde
Que chega de noite e continua manhã
Vai embora aos pouquinhos
Vai embora....
indo...

Que preguicinha!
Que vontade de parar o tempo
e parar no tempo
e ter tempo para fazer tudo isso parar

Que vontade de não fazer algo
Que vontade de fazer nada
E de deitar, e de levantar
e virar passivo
 frente a qualquer coisa inanimada

Eu não quero livros por hoje
Eu não quero algo que me faça pensar
Eu quero ser pensada
E comparada
A cada gotinha danada que cai desse céu cinza
e molhado
e infinitamente secreto
e infinitamente meu
e seu.

                                                                                         Carolina Morais

PS: Hoje o domingo está gostoso e chuvoso aqui em Athens. A vontade que tenho é de parar o tempo mesmo e de congelar nesse momento gostoso, intimista. A chuva mansinha e a meia-luz no lago a tarde é tão meu hoje, que não queria fazer isso ficar somente dentro de mim.
Ótimo domingo e ótima semana a todos! 

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Dois

     The sexually-charged Picasso piece depicts the artist and his lover in bed
  and was probably painted in 1901 or 1902 when the artist was in his early 20s.
Se a lua fosse minha
e a rua infinita
eu te carregava no bolso
e contava estrelinhas

E da janela acima da cama
Eu veria o sol amarelo
nascer azul
azulzinho

E amaria mais,
somente mais
o fruto no ventre meu
que seria teu 
em mim
um dia
e
para sempre.

                                        Carolina Morais

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Equilibrista

Cinzas se quebram na noite
O vento corre lilás e
amarelo pra longe de  mim
E eu, pobre alma s o l t a
prendo-me à corda bamba
esticada por duas janelas velhas
dos prédios de amigos de vizinhos teus.

Singular luz e singular ponto no preto plural
disforme.

Sou eu, trôpega,
equilibrando-me na tua secreta corda.
                        
Edgar Degas, Woman Bathing in a Shallow Tub,
 charcoal and pastel on light green wove paper, 1885
 (Metropolitan Museum of Art)
Equilibrando o quebranto outrora soprado
soprando um sopro de encanto
Num restinho de fantasia
Num momento, no outono
No fundo do poço
Num dia qualquer,
Num sonho, 
talvez...
Num terno amanhacer
de mentirinha.

Carolina Morais

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

The Double-Barreled Cannon

Eu ao lado da engenhoca ;p
O canhão de cano-duplo foi uma arma experimental criada pelos norte-americanos no estado da Geórgia. Ele foi criado para ser utilizado durante a Guerra Civil, mas não há provas de que ele foi realmente utilizado.
Em 1862, um homem chamado John Gilleland, que era dentista, construtor e mecânico (nossa, quanta coisa!) criou esse canhão de cano-duplo, em inglês chamado de double-barreled cannon.
Esse canhão foi projetado para atirar simultaneamente duas bolas de canhão ligadas a uma cadeia de "cortar o inimigo, como cortes de foice o trigo". (pode um negócio desses?!)
A engenhoca, claro, foi um fracasso total! A invencão foi testada inicialmente em 22 de abril de 1862. O que houve durante o teste foi detonação irregular do pó e imperfeições na fundição de barris.
O canhão de cano-duplo localizado em Athens,GA (cidade onde estou morando) é o double-barreled cannon mais famoso, mas existe alguns outros lugares( há um construído na índia e outro na Polônia, por exemplo).
Taí, ó: os dois canos! ;p
Enfim, para você ver até onde vai a imbecilidade humana. Minha nossa senhora, essa eu tinha que registrar! Literalmente, uma burrada histórica!Eu sou mais os brasileiros, que não inventaram esse canhão de dois canos, mas "inventaram"a tal da cana. E essa daí, meu amigo, derruba qualquer inimigo! kkk


Beijos!

O Double-Barreled Cannon fica hoje no gramado em frente à Câmara Municipal (City Hall) de Athens,Ga.
Carolina Morais

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Ocaso

Breu isolado no ventre teu
Iluminuras soltas no infinito do acaso
A sorte perpassa por entre vincos estreitos
da mente frágil do ser amado

O sol não brilha como antes
Quem dera pudesse eu guardar os raios no peito
E da pedra tirar a seiva da vida
E da vida tirar o dedo do ocaso

O ócio que impera ristes mantos sujos
Hoje se instala dentro do meu corpo cansado
Figuro manjares dentro dos olhos

Não compreendo ainda a alma
Não compreendo ainda o circuito de oitos eternos
Não abrirei meus olhos cegos de dor
Não julgarei outrem sem alma para dar

De onde vem o tempo
que carcome essas almas puras
petrificadas pela brisa seca de outrora?

A água salobra arde
O que era eterno virou momento
O que era momento virou verdade.
O que era verdade se esconde
em um infinito desconhecido
ou numa garrafa de vinho quebrada.

O que era vida se fez palavra
E da palavra, p-o-e-s-i-a.

Carolina Morais
Eine Kleine Nachtmusik 1943, by Dorthea Tanning.