quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Volto Já!

Querid@s,
Hoje estou viajando rumo à Washington D.C! Não é um sonho?!
Então, vou ficar ausente por uma semana inteira. Não deixem de visitar e, quando eu chegar de viagem eu conto tudinho e até coloco umas fotos bacanas na página Diário de Bordo!
Um cheirinho e um polenguinho!

Capitol, Washington DC

Carolina Morais

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Vida que venta

Vicent Van Gogh; Shoes, 1888
oil on canvas
...Até que a vida me chamou de sua
sorri de alegria e contentamento
gritei um olá ao vento
pedi que fosse suave e eterno
todos os dias desse momento.

Carolina Desmondier

domingo, 24 de outubro de 2010

A Mulher e o Homem [Parte 3- Final]

Fabian Perez, Proposal.
A mulher sorriu. Aos olhos do homem aquilo parecia um sorriso. A mulher tinha um ar de indiferença tão grande que inundava todo o bar com um vazio sem-fim. Era oca e seca. Ele estava molhado e ao mesmo tempo quente. O espumante parecera ácool puro. Não mais afirmava estar sóbrio e nem sabia ao certo se aquilo seria estar ébrio. A mulher não sorriu, ela riu. Viu o homem e riu. E chorou ao mesmo tempo. Estava confusa. e ele perdido. Os dois trocaram um olhar tão profundo como um buraco negro em um céu açucarado em uma praia deserta. Ela queria fechar seus olhos que ardiam e coçavam. Ele olhava porque queria. Ele gostava daquele olhar e, em segundos passados ligeiros, o homem tentava ler a mulher por completo, mas só conseguia visualizar um grande muro branco. Cansado, desistiu. Baixou o olhar e pensou em desistir. Quis ir embora pela segunda vez. A mulher o segurou pelo braço. As unhas grandes e quadradas, pintadas em rubro cintilante fincaram-se no braço branco do moço por todo alvo. Seu coração disparou. Sentiu um frio na barriga que parecia-lhe esperança, ou enjoo. Pensou que talvez a falta de comida por muitas horas lhe fizera mal ao combinar o estômago vazio com o espumante. Voltou ao bar em pensamentos e viu a cena: uma mulher bela e misteriosa segurando-lhe o braço, com a boca aberta em um suspiro e o os olhos semicerrados de desejo e posse. Aquele homem parecia lhe pertencer e ele pareceria gostar daquilo. Sentou. A mulher deixou as unhas lá, guardadas na carne fraca do homem. O homem, por sua vez desejou mais. Um beijo, talvez. Aproximou-se da mulher, e, chegando perto de seu pescoço sentiu novamente um embrulho no estômago. O perfume era forte demais e a mancha verde fazia-se aparecer para ele, que sentiu um nojo e uma vontade louca de quebrar o colar de pérolas barato. Desistiu de beijar-lhe a nuca. Encontrou mechas de cabelo por toda parte. A mulher prendera o cabelo de uma forma muito peculiar, de uma forma muito de qualquer jeito. E ele gostava daquilo. Ela não evitou um beijo. Subitamente ofereceu-lhe os lábios embebidos em batom vermelho. Parecia um pedaço de unha, ou um pedaço de pecado recortado de uma capa de revista adulta. Ele a beijou. Um beijo molhado e ardente. Ela mostrou-se tão passiva, oferecendo-lhe a língua e a boca aberta. Não o beijou, mas foi beijada. Não fechou os olhos e não morreu de amor. A mulher, não sentia nada que a acendesse ou que esquentasse o coração. Afastou a boca do homem pálido, agora rubro de paixão e voltou a beber seu vinho; fosse para apagar o gosto do homem da memória, fosse para tentar sentir seu gosto diluído em um pouquinho de alucinação.

Carolina Desmondier

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A Mulher e o Homem [Parte 2]

Fabian Perez; Wondering at las Brujas
Ele sentiu uns poucos pingos molharem-lhe  os cabelos perfeitamente despenteados. Ela andara até a porta e, como quem susurra um segredo secular, convidara-o para entrar e tomar uma dose de alguma coisa que lhe esquentasse o corpo já encharcado com á agua da chuva que engrossara em segundos poucos.
-Não sei se posso- disse o homem sem rumo. -Não sabe se pode, ou não sabe se quer?- retrucou a mulher com um olhar tão profundo como uma bola de cristal num quarto escuro. -Vamos, venha. Eu lhe ofereço um gole de meu vinho e alguns minutos de um tempo que eu não tenho.
O homem então se levantou e foi andando em direção à porta do bar. Entrou e olhou fixamente para os homens..alguns sérios, outros tristes, outros um tanto indecifráveis. Quis sair, quis ir para casa e assistir alguma coisa repetida na televisão. Se é repetida não precisa prestar tanta atenção e tentar entender. Sorriu para a mulher de preto. A mulher não sorriu de volta, não ofereceu-lhe sequer o brilho de seus dentes pequenos. A mulher sentou e fingiu que não conhecia o homem perdido. O homem sentiu tanta raiva e pensou que tudo aquilo estava errado. Que Ele não era aquilo que estava vivendo naquela noite. Sentou na mesa do bar, ao lado da mulher. Levantou, pegou o chapéu e fez um movimento para ir embora. A mulher nada fez. Ele esperou uma reação. Ele queria ser amado, nem que fosse de mentirinha. A mulher virou de costas.O homem, enfurecido, decidiu ficar. Pediu uma taça de Veuve Clicquot para ele e meia taça de Chateau Mouton Rothschild para ela.
-Troque! Chateau de Beaucastel. Quero a taça inteira. Obrigada.- O homem olhou perplexo. Havia um tom de fúria em seus olhos, mas havia também a admiração...e o desejo.
-Você sabe o que quer! Exclamou o homem, sem controlar sua expressão de espanto e desejo. A mulher, sem olhar para o homem retrucou: - Eu não sei o que eu quero, o que eu quero é que sabe de mim. Assim vivo, ou finjo viver...todas as noites.
O homem se calou por um instante. Engoliu o espumante como se fosse água. Desejou não ter entrado, desejou não ter conhecido aquela mulher. Desejou ser outra pessoa como essas que andam de dia e carregam sonhos nos bolsos fartos...

Carolina Morais

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A Mulher e o Homem [Parte 1]

A casa não mais abrigava a mulher sozinha. A varanda virara bar e o bar virara casa por uma única noite perdida (ou achada, talvez). A mulher caminhou em passos longos ao banheiro. Vestiu um vestido negro de seda. Prendeu os cabelos como lhe aprazia, de qualquer jeito. Mechas soltas caíam-lhe pela nuca embebida em um perfume barato. O colar fazia-lhe uma marca verde em tono do pescoço. A jóia barata dançava em sua pele manchada. E ela continuava linda. A pele era doce e suave. Parecia uma mulher sem máculas. De manchas, apenas as deixadas pelas pérolas baratas que ganhara, ou comprara...as roubara talvez. O vestido lhe vestia em um tom prototipicamente perfeito.
Fabian Perez, Letizia.
Caminhou em direção ao balcão. Nada pediu. Um moço ergueu uma taça e veio oferecer-lhe um líquido suave. A moça aceitou com um sorriso que em nada demonstrava felicidade. Tomou o vinho como quem toma um copo de vinagre azedo. E gostou. E sorriu. E deixou uma lágrima cair-lhe vagarosamente, como quem quisera sofrer por algo que não imaginara o que era. De longe viu um homem, sentado na calçada do bar a pensar em algo que não se conseguia decifrar. Ele parecera sofrer. Ele era tão bonito. Alvo, loiro e alto. E sozinho. Era o homem mais sozinho que a mulher já avistara em poucos meses, ou anos. Ou, talvez, em sua vida... vazia como seu ventre. Era um homem tão incomum. E continuava a ser um homem, sozinho e sentado numa calçada suja fedendo a lixo e chuva.

Carolina Morais

sábado, 16 de outubro de 2010

Chanel

Fabian Perez; Rojo Sillon.
Acordou e viu que algo não estava de acordo consigo mesma. Tomou um banho de gata, comeu três bolachas encharcadas de mel e alho. O gosto lhe fazia bem. Colocou um vestido qualquer e um suéter que enfeitara o guarda-roupa desde sua mocidade. Ainda lhe cabia bem. Tomou uma xícara de café, frio e velho. Comeu duas uvas amargas e escovou os dentes com a força e a destreza de quem engraxa os sapatos, ou o chefe em uma repartição pública monótona. Calçou um sapato preto. Alto. Pegou a bolsa de fita e foi ao salão de beleza mais próximo de casa. Pediu um corte, e um copo com gelo. Tirou uma garrafinha de dentro da bolsa de fita e despejou todo o líquido amargo dentro do copo. -Corte. Essa não sou eu. A cabeleireira cortou-lhe mecha por mecha. Queria mesmo que lhe cortasse algo por dentro, ou que lhe arrancasse o coração inútil. -Chanel! Pagou-lhe o montante e voltou para casa. Olhou-se no espelho. Sentiu falta dos cabelos espetando-lhe as costas antes nuas. Sentiu a brisa em seu pescoço. Sentou na poltrona da sala e, de súbito, percebeu que ainda era a mesma mulher e que, agora, o vento enforcava-lhe...lentamente.

Carolina Morais

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Homem

Fabian Perez, Waiting for the Romance to Come Back I.
Ele era cheio de sonhos. Sua criatividade um dia consquitaria um mundo inteiro. Loiro, alvo, de beleza ordinária (se é que a beleza pode ser ordinária). Cheio de si. Chegou em casa, um dia, de um dia cheio de desavenças com o seu ser. A transparência da água intrigara-lhe o interior. A falta de gosto queimava-lhe a língua e os ossos chamados dentes.Questionava sobre o tempo e sobre a vida que vivia. Algo lhe faltava. Não era o amor de uma mulher nem a vontade de uma. Não lhe faltavam amigos ou comida.Não lhe faltava o Cuvée Dom Pérignon, religiosamente, às sextas, na boca da noite. O gosto suave de nozes e avelãs lhe aprazia. Era um prazer só dele. Um homem quase feito, cheio de defeitos. Um homem que não colecionava armaguras para contar. Que não ostentava saudades para chorar. Um homem que sentia que algo lhe faltara. Talvez o erro, talvez uma vida que não fosse a dele. Talvez o tempo, talvez um filho que nunca geraria por fruto seu.
Era, então, um homem seco.

Carolina Morais