quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Lembrança

Ela, sozinha, saindo da faculdade. Uns poucos livros velhos no braço, abrançando um caderno fino com algumas folhas em branco que sobreviviam às suas muitas palavras escritas a lápis. A bolsa de couro sintético a cruzar o corpo magro e cansado carregavam um quase-nada que não fosse pessoal. Uma calça jeans, uma blusa branca de algodão e um rabo-de-cavalo. Estava pronta para ganhar o mundo com seu tênis azul e verde. Era viva e vivia o restante do dia. Andou com pressa até a parada de ônibus. Deixou uma folha cair no chão molhado de chuva. Por alguns segundos pensou se resgataria a folha. Esqueceu. Pegou a condução de volta para sua casa. A folha do caderno ficou lá. Molhada, sozinha. Um pedaço seu caiu de seu portfólio estudantil. A folha continha um poema e a poesia só lhe fazia visita uma vez por semana. Ela chorou um choro de dor, e de arrependimento.

Carolina Desmondier

11 comentários:

Jade Amorim disse...

Nossa, que texto mais lindo. De fato na pressa às vezes nos esquecemos das coisas, e só nos arrependemos quando sentimos falta.
Adorei o blog, lindo, lindo! Estou seguindo.

Beeijos!

Lara Amaral disse...

Ah, que lindo e triste este texto! Lembro-me dos meus poemas perdidos, dos tantos que rasguei... Mas sinto que foi melhor, me obriguei a renascer para uma poesia mais madura a cada dia.

Beijo, querida!

dade amorim disse...

Tristeza que toma a gente, sempre que se perde alguma coisa assim, importante como um poema. Um pedaço de nós.

Beijo, Carol.

Crônicas do Cotidiano disse...

Oi Carol,

Mas que texto hein guria... Esse texto me faz pensar em tanta coisa! Perfeito arranjo de idéias.
Um beijãooo e como sempre arrassandooo com tuas poesias maravilhosas!
Bjkss

A.S. disse...

Carol,

A poesia nunca se perde! As palavras de um poema voltam sempre para junto do destinatário!!!:))

Beijos!
AL

CAROLINA CAETANO disse...

"Era viva e vivia o restante do dia", e a folha inflou-se no mundo, a folha viveu, virou, o dia.
Um beijo, Carol!
Inté.

Mai disse...

Carol,

aí está ela e todos os seus mínimos detalhes.Muito bom!

grande abraço, boa semana, querida.

Machado de Carlos disse...

Quase sempre, não percebemos e deixamos alguma coisa importante para trás. Estas coisas tão importantes nos farão falta, então entramos em pânico. Há necessidade de refazer o poema que se foi junto ao vento.
Quem sabe alguém, com a necessidade de ter aquele poema não o encontrou?

Sil.. disse...

Minha linda...

Quantas coisas a gente não deixa pra trás....e dói!
Mas a gente refaz o poema!
E recomeça.

Amo você!

Michele P. disse...

Já me aconteceu algo assim. E como dói.

Adorei a sensibilidade poética desta prosa.

Beijos

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Não resisti, ia tomar banho, comer, fumar, mas tive que te ler.
Ai minha querida.... quanta coisa a gente perde por aí. E a gente tem que seguir, sempre seguir, recomeçar. Hoje tava pensando. Não dava pra inventar um ser humano que tivesse apenas que seguir?

besteirol....