sábado, 25 de dezembro de 2010

Tempos

Mesmo que não haja tempo
ou resto de vida
Se não houver um relógio que me prenda
Ou um calendário que me envelheça
Meu tempo é a eternidade refletida no meu amanhã.

The playing Claude Renoir
Pierre-Auguste Renoir



Carolina Morais

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Sandália de Pedra

Ela se sentia triste como Natal.Os presentes não eram para Ele. Havia briga, havia dívidas e gula.
O Natal era o tempo de ter um papai noel pendurado em algum lugar que se parecesse com uma chaminé.
Ela não tinha chaminé, ela nunca vira a neve. Ela não sabia que trenós carregavam gente. Ou lixo.
Ela sonhava sonhos de pisca-pisca. E nuvens douradas banhavam seu céu vermelho escarlate.
O Natal é um dia triste. Mesmo com todos ela se sente sozinha. E vazia.
Seu sapatinho virou uma sandália de pedra. E uma ciranda foi dançada até o amanhecer.

Carolina Morais

Coldplay - Christmas Lights

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Cutícula

A cutícula despregava-se do resto da carne fina da unha.
Isso doía-lhe muito, como um parto. Se tivesse útero sentiria a mesma dor. Talvez mais.
Aquele pedaço de carne estava dando-lhe nos nervos. Arrancar com os dentes já não lhe parecia a melhor opção. O sangue claro escorria-lhe por dentre os dedos. Tudo por um pedaço de carne morta.
Ele estava vivo, e sentia cada pedacinho da carne incômoda puxar-lhe o dedo indicador. Não havia mais caminhos. Aquilo era simplesmente perturbador. Resolveu ler um livro e ver se sentia dores maiores.
Esqueceu-se do dedo já podre. Esquecera da alma envelhecida pelo tempo.
Ele era só. Tão sozinho como sua biblioteca pessoal.

Carolina Morais

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Travesseiro

Ele fechou os olhos.
Encostou a cabeça pesada e velha no travesseiro, morada de ácaros e outros bichos.
Abriu a boca. Estava cansado e febril.
A chuva chutava sua janela. Devagar.
Tudo molhava em azul anil.
Seus sonhos dormiram junto de seus cães no quintal.
Era dia. Ainda.

Carolina Morais

sábado, 18 de dezembro de 2010

Strawberries

Um gosto diferente na boca.
Um tempero que adocica a vida breve.
Fugindo de pesadelos distantes.
O meu céu chora uma chuva fina
O meu chão dorme um sono de paz
E o que resta é um pouco do meu azedume


Carolina Morais

E que a vida nos leve para onde o céu beija o mar. E o que é  a vida senão um grande beijo? 

Coldplay - Strawberry Swing


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Acordar

Pablo Picasso, Girl in a Chemise circa 1905
Ela abriu os olhos devagar. Não havia tanta luz. Sentiu um frio percorrer os braços que se encontravam fora do edredon marrom. Sorriu um sorriso amargo de manhã-de-sempre. Pelo menos sorriu. Esperou um minuto. Talvez em sessenta segundos o calor do único feixe de luz que invadia o quarto por uma brecha da cortina lilás queimasse sua pele alva.
O calor não aconteceu. Pôs o pé no chão sujo e frio. Abria e fechava os olhos na esperança de aquilo tudo ser um sonho. Sonhou com um amanhã parecido com um passado distante. Acordou com um hoje repleto de responsabilidades e de cores frias e solitárias. Recolheu os pés. Cobriu-se com o edredon e percebera que era apenas mais um domingo...novamente.

Carolina Desmondier

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Partida

Quase não dormi de ontem para hoje. Muitas coisas para arrumar. Fazer, desfazer e refazer as malas é tarefa difícil. A ansiedade tomava conta de mim, como toma agora, nesse momento.
Estou partindo...estou deixando Athens,GA. Morei aqui por 5 meses...ora parece que foram 5 anos, ora parecem que foram 5 dias. A impressão maior é que cheguei ontem. E parece que foi ontem mesmo que estávamos entrando no nosso apartamento no The Reserve at Athens, vazio, sem nada. Apenas os móveis.
Eu demorei para ter esse lugar como "lar". Eu me senti uma hóspede. Eu me sentia visita dentro da própria casa em que pagava o aluguel, contas de energia, água, cabo.
Eu não me sentia em casa. Aos poucos, um ambiente familiar se formava ali para mim. Desde o princípio eu tive uma família formada por uma só pessoa, Camila. E, aos poucos a família foi crescendo e fiz muitos amigos por lá. Eu senti medo, eu me senti sozinha. Eu senti tudo isso e muita alegria. O meu primeiro pensamento ao sair do aeroporto foi "eu consegui". E, sonhar vale a pena. Parafraseando JJ, "os nossos sonhos são feitos de coisas reais". O meu desejo era real, e o meu sonho alimentou meu desejo.
Ontem, ao arrumar minhas malas e ver o quarto quase vazio, tal qual como cheguei me fez chorar. "Esse meu sonho está acabando", pensei eu. E chorei. Derramei lágrimas verdadeiras. Senti uma angústia tão grande. Foi a primeira vez que eu fiz morada fora de casa. Foi a primeira vez de muitas coisas que fiz em minha vida. Foi um grito de liberdade, ou melhor, de responsabilidade. Foi a experiência mais significativa que tive até agora.
Não foi uma viagem qualquer. Nao foi uma viagem. Foi uma experiência de vida. Eu vou sentir saudade de cada segundo vivido aqui. Ao “esvaziar”o quarto, Camila entrou nele e disse com uma voz triste: “nossa, tá fazendo eco”. A saudade ecoa também dentro de mim e sinto que estou deixando uma parte de mim nessa cidade. Eu vou passar mais um mês no país, mas vamos apenas passear. Estamos de férias. Eu sentirei saudade da casa que chamei de home.
Por algum tempo eu esqueci um pouco da minha vida em Fortaleza. Por um momento eu estive tão imersa em toda a minha experiência em Athens, que eu esqueci da minha vida em Fortaleza. Por um momento eu esqueci de Fortaleza, e parecia que eu morava aqui por toda a minha vida.
Das tristezas que tive aqui, apenas a saudade da minha família e dos amigos. Esses sim cortaram o meu coração. Principalmente da família, que sempre está com a gente. Eu percebi isso depois que saí de casa. O suporte que a família te dá não precisa ser através de palavras ou gestos. O “estar” é o mais importante de tudo.
Durante esse tempo eu cresci. Eu cresci e amadureci. Sou a mesma menina, com os mesmos sonhos, a diferença é que eles estão maiores e meus voos também estão mais altos. Eu mudei. Eu paguei contas, eu trabalhei para que eu conseguisse pagar as contas. Eu fiz feira, eu cozinhei...Eu cuidei de mim mesma, sozinha. Eu aprendi a ser mais flexível, eu aprendi a não julgar. Eu fiz amizades verdadeiras, eu aproveitei tudo que eu poderia ter aproveitado. Eu curti, eu chorei, eu sorri. Eu aprendi, eu estudei. Eu descobri um universo novo e isso eu vou levar para mim pelo resto dos meus dias.
Eu aprendi que as coisas não são para sempre. E essa é talvez a pior parte. Eu aprendi que a vida é feita de escolhas, e que você é a única pessoa quem poderá fazê-las. Eu descobri também que se algo não der certo, a gente sempre tem um outro caminho. E que a felicidade sempre acena para a gente, e que a gente é que tem o poder de correr atrás dela.
          Eu aprendi que o amor dos teus pais é a coisa mais forte que você pode sentir. E que eles são as pessoas que mais te amam no mundo. Eu percebi que o amor da sua irmã é mais que amor, mas é cumplicidade também. Senti falta de ter minha irmã pelo menos no quarto ao lado, por perto.
          Eu aprendi que você faz amigos. Muitos. E que você não precisa esperar nada em troca. Eles te amam e te fortalecem sempre.
          Ao olhar para trás, eu vejo que eu continuo olhando para frente. E, hoje, eu vi o que era sentir saudades de verdade. Eu estou deixando meu lar, e vi que a saudade maior está lá nas minhas raízes, com minha família. Eu sinto saudade do que eu chamo de “lar”desde que eu nasci.
          A vida é feita de escolhas, e nossas escolhas movem a gente para a direção que a gente deseja seguir. Hoje eu chorei, dizendo para mim mesma que “o sonho que eu vivi aqui acabou”. Sim, acabou...de começar.

Carolina Morais

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Dreams

Keep screaming

Your mind is lost

just like your dreams

So
Close your eyes

and dream again
and again
The dream that disturbs you

is the same as you cherish...

forever

Carolina Morais

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Lembrança

Ela, sozinha, saindo da faculdade. Uns poucos livros velhos no braço, abrançando um caderno fino com algumas folhas em branco que sobreviviam às suas muitas palavras escritas a lápis. A bolsa de couro sintético a cruzar o corpo magro e cansado carregavam um quase-nada que não fosse pessoal. Uma calça jeans, uma blusa branca de algodão e um rabo-de-cavalo. Estava pronta para ganhar o mundo com seu tênis azul e verde. Era viva e vivia o restante do dia. Andou com pressa até a parada de ônibus. Deixou uma folha cair no chão molhado de chuva. Por alguns segundos pensou se resgataria a folha. Esqueceu. Pegou a condução de volta para sua casa. A folha do caderno ficou lá. Molhada, sozinha. Um pedaço seu caiu de seu portfólio estudantil. A folha continha um poema e a poesia só lhe fazia visita uma vez por semana. Ela chorou um choro de dor, e de arrependimento.

Carolina Desmondier

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Estrela

Do dia pequeno
Da escuridão maltratada pelo tempo
Uma estrela banha o céu que não se diz firmamento.

Uma ideia doida
Uma ideia sozinha
Uma ideia minha
Só minha!

Um vento frio de contentamento
Um vinho e um copo
Um morango e um balde de gelo
Um começo para quem acha que tudo é fim.
Um fim para quem parou no meio
(e para quem acha que o céu é longe da alma).

Carolina Desmondier

domingo, 7 de novembro de 2010

Voltei!

Querid@s,

Washington Monument, DC.
Estou de volta (Athens,GA)!!!
Bom, vai levar um pouquinho de tempo até eu atualizar tudo por aqui! =)
A viagem foi maravilhosa e já estou escrevendo um pouquinho sobre na página do meu diário de bordo (mas ainda não publiquei).
Amanhã volto a me organizar melhor e a escrever!
Um beijo no coração de vocês.

Carolina Morais

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Volto Já!

Querid@s,
Hoje estou viajando rumo à Washington D.C! Não é um sonho?!
Então, vou ficar ausente por uma semana inteira. Não deixem de visitar e, quando eu chegar de viagem eu conto tudinho e até coloco umas fotos bacanas na página Diário de Bordo!
Um cheirinho e um polenguinho!

Capitol, Washington DC

Carolina Morais

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Vida que venta

Vicent Van Gogh; Shoes, 1888
oil on canvas
...Até que a vida me chamou de sua
sorri de alegria e contentamento
gritei um olá ao vento
pedi que fosse suave e eterno
todos os dias desse momento.

Carolina Desmondier

domingo, 24 de outubro de 2010

A Mulher e o Homem [Parte 3- Final]

Fabian Perez, Proposal.
A mulher sorriu. Aos olhos do homem aquilo parecia um sorriso. A mulher tinha um ar de indiferença tão grande que inundava todo o bar com um vazio sem-fim. Era oca e seca. Ele estava molhado e ao mesmo tempo quente. O espumante parecera ácool puro. Não mais afirmava estar sóbrio e nem sabia ao certo se aquilo seria estar ébrio. A mulher não sorriu, ela riu. Viu o homem e riu. E chorou ao mesmo tempo. Estava confusa. e ele perdido. Os dois trocaram um olhar tão profundo como um buraco negro em um céu açucarado em uma praia deserta. Ela queria fechar seus olhos que ardiam e coçavam. Ele olhava porque queria. Ele gostava daquele olhar e, em segundos passados ligeiros, o homem tentava ler a mulher por completo, mas só conseguia visualizar um grande muro branco. Cansado, desistiu. Baixou o olhar e pensou em desistir. Quis ir embora pela segunda vez. A mulher o segurou pelo braço. As unhas grandes e quadradas, pintadas em rubro cintilante fincaram-se no braço branco do moço por todo alvo. Seu coração disparou. Sentiu um frio na barriga que parecia-lhe esperança, ou enjoo. Pensou que talvez a falta de comida por muitas horas lhe fizera mal ao combinar o estômago vazio com o espumante. Voltou ao bar em pensamentos e viu a cena: uma mulher bela e misteriosa segurando-lhe o braço, com a boca aberta em um suspiro e o os olhos semicerrados de desejo e posse. Aquele homem parecia lhe pertencer e ele pareceria gostar daquilo. Sentou. A mulher deixou as unhas lá, guardadas na carne fraca do homem. O homem, por sua vez desejou mais. Um beijo, talvez. Aproximou-se da mulher, e, chegando perto de seu pescoço sentiu novamente um embrulho no estômago. O perfume era forte demais e a mancha verde fazia-se aparecer para ele, que sentiu um nojo e uma vontade louca de quebrar o colar de pérolas barato. Desistiu de beijar-lhe a nuca. Encontrou mechas de cabelo por toda parte. A mulher prendera o cabelo de uma forma muito peculiar, de uma forma muito de qualquer jeito. E ele gostava daquilo. Ela não evitou um beijo. Subitamente ofereceu-lhe os lábios embebidos em batom vermelho. Parecia um pedaço de unha, ou um pedaço de pecado recortado de uma capa de revista adulta. Ele a beijou. Um beijo molhado e ardente. Ela mostrou-se tão passiva, oferecendo-lhe a língua e a boca aberta. Não o beijou, mas foi beijada. Não fechou os olhos e não morreu de amor. A mulher, não sentia nada que a acendesse ou que esquentasse o coração. Afastou a boca do homem pálido, agora rubro de paixão e voltou a beber seu vinho; fosse para apagar o gosto do homem da memória, fosse para tentar sentir seu gosto diluído em um pouquinho de alucinação.

Carolina Desmondier

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A Mulher e o Homem [Parte 2]

Fabian Perez; Wondering at las Brujas
Ele sentiu uns poucos pingos molharem-lhe  os cabelos perfeitamente despenteados. Ela andara até a porta e, como quem susurra um segredo secular, convidara-o para entrar e tomar uma dose de alguma coisa que lhe esquentasse o corpo já encharcado com á agua da chuva que engrossara em segundos poucos.
-Não sei se posso- disse o homem sem rumo. -Não sabe se pode, ou não sabe se quer?- retrucou a mulher com um olhar tão profundo como uma bola de cristal num quarto escuro. -Vamos, venha. Eu lhe ofereço um gole de meu vinho e alguns minutos de um tempo que eu não tenho.
O homem então se levantou e foi andando em direção à porta do bar. Entrou e olhou fixamente para os homens..alguns sérios, outros tristes, outros um tanto indecifráveis. Quis sair, quis ir para casa e assistir alguma coisa repetida na televisão. Se é repetida não precisa prestar tanta atenção e tentar entender. Sorriu para a mulher de preto. A mulher não sorriu de volta, não ofereceu-lhe sequer o brilho de seus dentes pequenos. A mulher sentou e fingiu que não conhecia o homem perdido. O homem sentiu tanta raiva e pensou que tudo aquilo estava errado. Que Ele não era aquilo que estava vivendo naquela noite. Sentou na mesa do bar, ao lado da mulher. Levantou, pegou o chapéu e fez um movimento para ir embora. A mulher nada fez. Ele esperou uma reação. Ele queria ser amado, nem que fosse de mentirinha. A mulher virou de costas.O homem, enfurecido, decidiu ficar. Pediu uma taça de Veuve Clicquot para ele e meia taça de Chateau Mouton Rothschild para ela.
-Troque! Chateau de Beaucastel. Quero a taça inteira. Obrigada.- O homem olhou perplexo. Havia um tom de fúria em seus olhos, mas havia também a admiração...e o desejo.
-Você sabe o que quer! Exclamou o homem, sem controlar sua expressão de espanto e desejo. A mulher, sem olhar para o homem retrucou: - Eu não sei o que eu quero, o que eu quero é que sabe de mim. Assim vivo, ou finjo viver...todas as noites.
O homem se calou por um instante. Engoliu o espumante como se fosse água. Desejou não ter entrado, desejou não ter conhecido aquela mulher. Desejou ser outra pessoa como essas que andam de dia e carregam sonhos nos bolsos fartos...

Carolina Morais

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A Mulher e o Homem [Parte 1]

A casa não mais abrigava a mulher sozinha. A varanda virara bar e o bar virara casa por uma única noite perdida (ou achada, talvez). A mulher caminhou em passos longos ao banheiro. Vestiu um vestido negro de seda. Prendeu os cabelos como lhe aprazia, de qualquer jeito. Mechas soltas caíam-lhe pela nuca embebida em um perfume barato. O colar fazia-lhe uma marca verde em tono do pescoço. A jóia barata dançava em sua pele manchada. E ela continuava linda. A pele era doce e suave. Parecia uma mulher sem máculas. De manchas, apenas as deixadas pelas pérolas baratas que ganhara, ou comprara...as roubara talvez. O vestido lhe vestia em um tom prototipicamente perfeito.
Fabian Perez, Letizia.
Caminhou em direção ao balcão. Nada pediu. Um moço ergueu uma taça e veio oferecer-lhe um líquido suave. A moça aceitou com um sorriso que em nada demonstrava felicidade. Tomou o vinho como quem toma um copo de vinagre azedo. E gostou. E sorriu. E deixou uma lágrima cair-lhe vagarosamente, como quem quisera sofrer por algo que não imaginara o que era. De longe viu um homem, sentado na calçada do bar a pensar em algo que não se conseguia decifrar. Ele parecera sofrer. Ele era tão bonito. Alvo, loiro e alto. E sozinho. Era o homem mais sozinho que a mulher já avistara em poucos meses, ou anos. Ou, talvez, em sua vida... vazia como seu ventre. Era um homem tão incomum. E continuava a ser um homem, sozinho e sentado numa calçada suja fedendo a lixo e chuva.

Carolina Morais

sábado, 16 de outubro de 2010

Chanel

Fabian Perez; Rojo Sillon.
Acordou e viu que algo não estava de acordo consigo mesma. Tomou um banho de gata, comeu três bolachas encharcadas de mel e alho. O gosto lhe fazia bem. Colocou um vestido qualquer e um suéter que enfeitara o guarda-roupa desde sua mocidade. Ainda lhe cabia bem. Tomou uma xícara de café, frio e velho. Comeu duas uvas amargas e escovou os dentes com a força e a destreza de quem engraxa os sapatos, ou o chefe em uma repartição pública monótona. Calçou um sapato preto. Alto. Pegou a bolsa de fita e foi ao salão de beleza mais próximo de casa. Pediu um corte, e um copo com gelo. Tirou uma garrafinha de dentro da bolsa de fita e despejou todo o líquido amargo dentro do copo. -Corte. Essa não sou eu. A cabeleireira cortou-lhe mecha por mecha. Queria mesmo que lhe cortasse algo por dentro, ou que lhe arrancasse o coração inútil. -Chanel! Pagou-lhe o montante e voltou para casa. Olhou-se no espelho. Sentiu falta dos cabelos espetando-lhe as costas antes nuas. Sentiu a brisa em seu pescoço. Sentou na poltrona da sala e, de súbito, percebeu que ainda era a mesma mulher e que, agora, o vento enforcava-lhe...lentamente.

Carolina Morais

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Homem

Fabian Perez, Waiting for the Romance to Come Back I.
Ele era cheio de sonhos. Sua criatividade um dia consquitaria um mundo inteiro. Loiro, alvo, de beleza ordinária (se é que a beleza pode ser ordinária). Cheio de si. Chegou em casa, um dia, de um dia cheio de desavenças com o seu ser. A transparência da água intrigara-lhe o interior. A falta de gosto queimava-lhe a língua e os ossos chamados dentes.Questionava sobre o tempo e sobre a vida que vivia. Algo lhe faltava. Não era o amor de uma mulher nem a vontade de uma. Não lhe faltavam amigos ou comida.Não lhe faltava o Cuvée Dom Pérignon, religiosamente, às sextas, na boca da noite. O gosto suave de nozes e avelãs lhe aprazia. Era um prazer só dele. Um homem quase feito, cheio de defeitos. Um homem que não colecionava armaguras para contar. Que não ostentava saudades para chorar. Um homem que sentia que algo lhe faltara. Talvez o erro, talvez uma vida que não fosse a dele. Talvez o tempo, talvez um filho que nunca geraria por fruto seu.
Era, então, um homem seco.

Carolina Morais

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A Varanda

Fabian Perez; Balcony at Buenos Aires IV
Debruçou-se no parapeito descascado da varanda. Ventava um vento frio e bom. Ela pegou um livro sobre qualquer coisa da vida, sobre alguém que acha que entende de gente, sobre alguém que finge ser feliz através de uma experiência que poderia ser de alguém qualquer, não dela. Ela acendeu um cigarro de canela e alcançou um Moscatel de Lagos, doce e licoroso. Derramou delicadamente na taça limpa, alva. O som do vinho a cair na taça soou como música. Ouviu o vento de longe. Uma folha caiu em seu colo. Um gole desceu pela garganta, antes seca, antes cheia...de nós. Sentiu um arrepio e um aperto no peito. Sentiu saudades da família que não tivera, do livro que não escrevera e da árvore que não plantara. Quis ser ídolo um dia. Quis lutar. Desistiu e tentou viver. Jogou o livro no chão e olhou para a obra arregaçada na lama, sozinha. Ali era o seu lugar. Tragou o que tinha para tragar, bebeu  que tinha para beber. Iria novamente para a cama, sozinha. Amanhã? -Um novo dia, talvez. E a varanda continuaria a soprar folhas secas em seu colo vazio.

Carolina Morais

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

10 de Outubro de 2010

Dia 10.10.10 (Domingo):
Hoje passei a tarde deitada, na beira da piscina, lendo "The Wonderful Wizard of Oz". Li o livro todo e nem vi o tempo passar! Recomendo. Muito bonito! Estou bem queimada do sol, pois hoje fez quase 30 graus Celcius. Os raios solares estavam intensos e deu pra curtir bastante! Voltei para casa e fiz alguns trabalhos e escrevi o post. Assisti à película "Once".  Também recomendo o filme. É muito bonito!
Sobre o filme:
Once (br: Apenas Uma Vez) é um filme musical irlandês de 2007 escrito e dirigido por John Carney. Rodado em Dublin, Irlanda, este drama naturalista é estrelado pelos músicos Glen Hansard (da popular banda de rock irlandesa "O Frames") e Markéta Irglová (compositora e instrumentista nascida na República Checa). Hansard e Irglová compuseram e executaram todas (exceto uma) as canções originais do filme.
Com orçamento de apenas 130.000 euros (160.000 dólares), o filme foi muito bem sucedido, sendo um sucesso de bilheteria nos Estados Unidos. Recebeu ótimas críticas e prêmios em 2008, como o Independent Spirit Award para melhor filme estrangeiro. A canção de Hansard e Irglová "Falling Slowly" foi indicada ao Oscar e ao Grammy de 2008. Esta música também foi cantada pelo vencedor do American Idol 8, Kris Allen, julgada por Simon Cowell como "brilhante".

18 de Outubro de 2010

Dia 08.10.10 (Sexta-feira):

Eu no "The Globe"

Hoje eu e Camila fomos à International Coffee Hour, que ocorre todas as sextas-feiras, de 11:30am às 13:00pm. É um evento no qual estudantes internacionais e estudantes locais se juntam, almoçam e conversam. Fazemos novas amizades e acabamos por conhecer pessoas do mundo todo! Fiz amizade com pessoas da Nigéria, do Paquistão, dos EUA, da Índia. É um momento muito rico e divertido. Nesse encontro conversei bastante com uma moça nigeriana, mas que mora nos EUA desde 1996. Ela tem aulas de Português e fala nossa língua muito bem! Interessante alguém gostar da nossa língua,e mais: saber que aqui no Brasil falamos Português e não Espanhol! 
Depois, fomos ao Wal-Mart comprar algumas coisas necessárias (e isso inclui bota e roupa de frio também! rs).
Fish and Chips
À noite fomos curtir a noite em Downtown. Fomos eu, Camila, Tico e Thiago. Fomos primeiro a um barzinho chamado "The Globe". Muito bom, pois os pratos lá não são tão caros. Pedimos "Fish and Chips", que é peixe frito com batata frita (sim, tudo frito. Infelizmente a culinária típica sulista é composta de pratos fritos). Pedimos também uma batata ao molho gorgonzola. É gostosa, mas um pouco enjoativa. Essa é boa mesmo para quem é fã de queijo. Conversamos, comemos. Foi bem divertido. Depois fomos em mais dois "pubs". O primeiro foi o Cutter Pub e o outro foi o Maxi Canada. Eu estava congelando já. Quase duas da manhã voltamos para casa de táxi. Foi muito divertido. A noite estava muito animada em Downtown. Amanhã o time da Georgia (Georgia Bulldawgs) jogam na cidade.

Dia 07.10.10 (Quinta-feira):

Aniversário do meu pai querido! Muita saudade dele e de toda a minha família que tanto amo!
Eu carregando as sacolas repletas de conhecimento!
Hoje de manhã não tive aula, o que foi muito bom, por sinal. De manhã eu e Camila fomos à Universidade, a um prédio chamado Tate Center. Nesse local estava sendo realizada uma "book sale", nada mais do que uma feira de livros. O livro mais caro saía por 7 dólares. Eu fiquei louca com tanta obra boa! Comprei 12 livros. O mais caro saiu por 4 dólares. (Quero ver eu carregando essa biblioteca para o Brasil, rs). Mas, foi muito bom. A Seção de Ficção e poesia era imensa! Comprei diversos livros bons. Fiquei muito satisfeita. 
Os livros que comprei! =)








Aproveitei para descansar um pouquinho, pois ainda teria aula de ballet!
Fui para minha aula de Ballet Clássico no Ramsey. Após a aula fui andando até o Aderhold (Prédio da Faculdade de Educação da University of Georgia) e esperei a Camila chegar. Fomos juntas a um evento da International Student Life (ISL) na First United Methodist Church. Houve uma festinha de Halloween para estudantes internacionais. Muitas pessoas foram fantasiadas ou com alguma vestimenta típica do país de origem. Eu fui com a camisa do Brasil (detalhe: estava cansada, pois acabara de voltar do Ballet..rsrs). Chegando lá, jantamos, conversamos muito, comemos alguns doces e "esculpimos uma abóbora". "Carving a pumpkin" (Esculpir uma abóbora) é uma tradição do Halloween aqui. 
Eu e meninas esculpindo a Abóbora.
Foi muito bacana esculpir a abóbora. A fruta (sim, fruta!) é meio nojenta por dentro, mas o processo todo é muito divertido. Uma das norte-americanas, chamada Courtney, nos contou que eles usam as sementes para fazer petisco. A receita é lavar as sementes da abóbora (nosso famoso jerimum) e assá-las no forno com sal.

06 de Outubro de 2010

Dia 06.10 (Quarta-feira):

À noite fomos assistir um documentário na Universidade. Fomos eu, Camila e Thiago. O documentário chama-se Descobrindo Dominga (Discovering Dominga). O documentário é bastante interessante e fala sobre o massacre ocorrido na Guatemala durante a guerra civil. 
Para quem, assim como eu, nunca ouvira falar no massacre(e,sim, eu me envergonho por isso! Mas, não mais, pois fiquei sabendo através do documentário chocante e após, ao chegar em casa, por pesquisas que prenderam minha atenção e colaram meus olhos na frente do computador por horas a fio) não se preocupe! Ainda há tempo de ler sobre e se indignar, como eu! 


Mapa da Guatemala
Sobre Guatemala:


A Guatemala é o terceiro maior país da América Central. Limita-se ao Norte e a Oeste com o México, ao Sul com o oceano Pacífico e a Leste com Honduras, Belize e El Salvador. Assim como outros países centro-americanos, a Guatemala possui diversos lagos, cadeias de montanhas, que são prolongamento da Serra Madre mexicana, e grandes vulcões – alguns chegam a atingir mais de 4.000m de altitude e ainda estão ativos, como o Tajumulco, de 4.210m e o Tacaná, de 4.093m.

Sobre a Guerra Civil:


Guerra Civil da Guatemala foi um conflito armado que decorreu na Guatemala entre 1960 e 1996, entre o governo guatemalteco e vários grupos de guerrilha que se lhe opunham. Estima-se que tenham perdido a vida neste conflito cerca de 150.000 pessoas; outras 40.000 são consideradas desaparecidas.




Aqui vai a tradução que fiz da sinopse do filme:






Ao 29 anos de idade dona de casa em Iowa, EUA, chamada Denese Becker decide voltar para a aldeia da Guatemala, onde ela nasceu. Ela começa uma jornada para encontrar suas raízes, mas a jornada é cheia de revelações chocantes. Denese, nascida Dominga, tinha nove anos quando ela se tornou o único sobrevivente de sua família de um massacre de camponeses maias. Dois anos mais tarde foi adotada por uma família norte-americana. Em Descobrindo Dominga, A jornada de Denese é tanto uma viagem de autodescoberta que altera permanentemente o seu relacionamento com sua família americana e um despertar político que lança luz sobre um ato de genocídio contra a  maioria indiana do hemisfério.

Eu recomendo o documentário. Aviso que há imagens muito fortes, assim como foi o massacre. Para quem deseja saber mais sobre o filme, acesse: http://www.itvs.org/films/discovering-dominga .





sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Canção

Acordou cedo com ares de novo dia. Abriu os olhos cansados. Caminhou até o espelho e penteou o que sobrara dos seus cabelos negros.
Bocejou uma canção de ninar.
Sentiu a brisa fria banhar-lhe os ossos dos dedos dos pés. Beijou as flores do campo.
Esquecera dos outros ao seu redor. Esqueceu do mundo que a abraçara. Deitou em um movimento suave. Dormiu um sono de anjo. Sonhou uma vida de vento. Adormeceu nos braços da noite.
Ela então desejou dormir para nunca mais acordar.
Carolina Morais
Renoir; Sleeping Girl,1880.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Aquarela


Pierre-Auguste Renoir (French 1841-1919).
Claude Monet painting in his Garden at Argenteuil, about 1873.
Oil on canvas. 19 3/4 x 24 in. (46 x 60 cm).
Acordei Amarela
Deixei minha aquarela cair
Espalhei momentos meus pela terra batida
Pintei um arco-celeste nos dedos dos teus pés.

Vento de areia vermelha
Carrega meus pensamentos todos
para longe de mim, perto de um penhasco
qualquer.

Caraminholas doidas que voam além daqui
Dormem num estado atmosférico desigual
do nosso

Eu vou de um lado para outro
temendo a morte escura
temendo o futuro anil
temendo meu eu que
nem eu sei onde se encontra
branco como a neve
puro e incerto

Perdida, vago pelo mundo
Vejo sua alma multicolorida
Mordo a almofada da sala
Ansiedade passada
e futura
no mel dos teus olhos marejados

Tudo fica comigo por um instante
Eu possuo o mundo no meu bolso
Eu levo comigo um colar de diamantes
Eu rasgo as cartas que eu li
Eu escrevo novas com meu eu remendado
de novo e de novo e de novo

Eu nunca me canso
de chupar laranja verde
de dizer que estou viva.

Carolina Morais

*Dedico esse poema à minha querida Lara Amaral, dona de um teatro no qual quem atua somos nós! Um grande beijo, Larinha!

domingo, 3 de outubro de 2010

Videolog # 3

Um pouquinho de mim contando um pouquinho das minhas experiências aqui em Athens!
Um cheirinho e um polenguinho!
;*

sábado, 2 de outubro de 2010

Sublime

Wanderer above the Sea of Fog*
by Caspar David Friedrich (Germany, 1818)
Suspiro e respiro um ar de mesmice
Amo e depravo sentimentos doidos
Abro portas trancadas pelo tempo
Subo vagarosamente a escada rumo ao céu

Sou anjo novo sem voar
Flutuo no vão dos pensamentos novos
De mãos dadas com a vida vã
Vou ver o horizonte lavando o mar

Passadismos azuis
colorem minha parede de metal
O frio embarca comigo
Vamos juntos pelos campos abertos

O vento caminha ligeiro
dançamos uma valsa longa
Respiro novamente um ar frio e puro
De maresia tingida de perfume cítrico

Hoje sinto meus pés quase tocarem o chão
e cada grãozinho de areia
que banha meus dedos calejados
Lembram meu passado e meu presente
e o que serei um dia longe desse lugar imaginário.

Carolina Morais

* Esse quadro fez parte do Movimento Romântico. A pintura captura o sentimento de incerteza a respeito do futuro, mas, ao mesmo tempo a coragem de enfrentar esse futuro. É o retrato do que chamamos de "sublime". 

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Medo

O medo revela a derrota
The Old Guitarist
Pablo Picasso

Oil On Panel, 1903
tinge de preto o desespero,
desencoraja a alma,
Rasga a pura seda
carcome a carne fraca.

O medo transcende o orgulho
surge em meio ao tudo
esconde-se no nada
encobre o que somos em essência
Embranquece pensamento.

O medo me tira pedaço
arranca o olho bom e,
vagarosamente,
corta cada víscera viva
esmagando meu estômago
vazio.

O medo surge na noite
cresce dentro da gente
foge das rezas
apaga as velas
Congela o horizonte.

O medo realiza o covarde,
E mata o corajoso
E desfaz sonhos gigantes
E desfaz mundos perfeitos
E desfia laços dados
com o certeiro amanhacer.

Carolina Morais

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Corrosão

Manet: Gare St.
Lazare, 1873
Busco sentido no vão de palavras mortas
Aprisiono-me no vão de tuas grades tortas

Estou entregue aos teus caprichos esquecidos
em palavras doces de afago
Não ditas mais

Encontro-me presa
Encontro-me do outro lado da vida

Vejo tudo diante de mim:
Vejo a vida que passa ligeira
Vejo o tempo desperdiçado,
as palavras poucas,
muitas
mudas.

A falta delas
E falta que me faz ouví-las

E num sussuro brando
Assopro meu resto de tempo
Cuspo meus restos de sonho na grade:
Vejo então a corrosão

Liberta novamente!
Faço isso tudo,
tudinho...

sem pressa
sem culpa
sem peso...


diariamente.

Carolina Morais

domingo, 26 de setembro de 2010

Domingo

Landscape under a Stormy Sky by Vincent van Gogh
As gotinhas tilintam
no quase-chão azedo do meu quarto
A manhã que passa por tarde
Que chega de noite e continua manhã
Vai embora aos pouquinhos
Vai embora....
indo...

Que preguicinha!
Que vontade de parar o tempo
e parar no tempo
e ter tempo para fazer tudo isso parar

Que vontade de não fazer algo
Que vontade de fazer nada
E de deitar, e de levantar
e virar passivo
 frente a qualquer coisa inanimada

Eu não quero livros por hoje
Eu não quero algo que me faça pensar
Eu quero ser pensada
E comparada
A cada gotinha danada que cai desse céu cinza
e molhado
e infinitamente secreto
e infinitamente meu
e seu.

                                                                                         Carolina Morais

PS: Hoje o domingo está gostoso e chuvoso aqui em Athens. A vontade que tenho é de parar o tempo mesmo e de congelar nesse momento gostoso, intimista. A chuva mansinha e a meia-luz no lago a tarde é tão meu hoje, que não queria fazer isso ficar somente dentro de mim.
Ótimo domingo e ótima semana a todos! 

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Dois

     The sexually-charged Picasso piece depicts the artist and his lover in bed
  and was probably painted in 1901 or 1902 when the artist was in his early 20s.
Se a lua fosse minha
e a rua infinita
eu te carregava no bolso
e contava estrelinhas

E da janela acima da cama
Eu veria o sol amarelo
nascer azul
azulzinho

E amaria mais,
somente mais
o fruto no ventre meu
que seria teu 
em mim
um dia
e
para sempre.

                                        Carolina Morais

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Equilibrista

Cinzas se quebram na noite
O vento corre lilás e
amarelo pra longe de  mim
E eu, pobre alma s o l t a
prendo-me à corda bamba
esticada por duas janelas velhas
dos prédios de amigos de vizinhos teus.

Singular luz e singular ponto no preto plural
disforme.

Sou eu, trôpega,
equilibrando-me na tua secreta corda.
                        
Edgar Degas, Woman Bathing in a Shallow Tub,
 charcoal and pastel on light green wove paper, 1885
 (Metropolitan Museum of Art)
Equilibrando o quebranto outrora soprado
soprando um sopro de encanto
Num restinho de fantasia
Num momento, no outono
No fundo do poço
Num dia qualquer,
Num sonho, 
talvez...
Num terno amanhacer
de mentirinha.

Carolina Morais

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

The Double-Barreled Cannon

Eu ao lado da engenhoca ;p
O canhão de cano-duplo foi uma arma experimental criada pelos norte-americanos no estado da Geórgia. Ele foi criado para ser utilizado durante a Guerra Civil, mas não há provas de que ele foi realmente utilizado.
Em 1862, um homem chamado John Gilleland, que era dentista, construtor e mecânico (nossa, quanta coisa!) criou esse canhão de cano-duplo, em inglês chamado de double-barreled cannon.
Esse canhão foi projetado para atirar simultaneamente duas bolas de canhão ligadas a uma cadeia de "cortar o inimigo, como cortes de foice o trigo". (pode um negócio desses?!)
A engenhoca, claro, foi um fracasso total! A invencão foi testada inicialmente em 22 de abril de 1862. O que houve durante o teste foi detonação irregular do pó e imperfeições na fundição de barris.
O canhão de cano-duplo localizado em Athens,GA (cidade onde estou morando) é o double-barreled cannon mais famoso, mas existe alguns outros lugares( há um construído na índia e outro na Polônia, por exemplo).
Taí, ó: os dois canos! ;p
Enfim, para você ver até onde vai a imbecilidade humana. Minha nossa senhora, essa eu tinha que registrar! Literalmente, uma burrada histórica!Eu sou mais os brasileiros, que não inventaram esse canhão de dois canos, mas "inventaram"a tal da cana. E essa daí, meu amigo, derruba qualquer inimigo! kkk


Beijos!

O Double-Barreled Cannon fica hoje no gramado em frente à Câmara Municipal (City Hall) de Athens,Ga.
Carolina Morais

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Ocaso

Breu isolado no ventre teu
Iluminuras soltas no infinito do acaso
A sorte perpassa por entre vincos estreitos
da mente frágil do ser amado

O sol não brilha como antes
Quem dera pudesse eu guardar os raios no peito
E da pedra tirar a seiva da vida
E da vida tirar o dedo do ocaso

O ócio que impera ristes mantos sujos
Hoje se instala dentro do meu corpo cansado
Figuro manjares dentro dos olhos

Não compreendo ainda a alma
Não compreendo ainda o circuito de oitos eternos
Não abrirei meus olhos cegos de dor
Não julgarei outrem sem alma para dar

De onde vem o tempo
que carcome essas almas puras
petrificadas pela brisa seca de outrora?

A água salobra arde
O que era eterno virou momento
O que era momento virou verdade.
O que era verdade se esconde
em um infinito desconhecido
ou numa garrafa de vinho quebrada.

O que era vida se fez palavra
E da palavra, p-o-e-s-i-a.

Carolina Morais
Eine Kleine Nachtmusik 1943, by Dorthea Tanning.