sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Sinal Vermelho


Estávamos quase de mãos dadas, estudando com o olhar os carros que formavam uma nuvem de fumaça, analisando o labirinto de rodas de borracha negra como a noite que caía sobre nossos ombros soltos na pista. Foi quando o vi. Seus olhos descompassados clareavam seu rosto pálido que ocupava um lugar quase inexistente dentro de seu veículo cobre. Por um momento as mãos não se encontravam. A mão que me afaga diariamente foi na frente, abrindo caminho por entre os automóveis que insistiam em ocupar a pista que atravessaríamos naquela hora. E eu fiquei ali, imóvel, no canteiro central. Aqueles olhos hipnóticos entoavam canções que venciam buzinas e luzes e céus que escureciam sobre nossas cabeças cansadas. Misto de desespero, desejo e vontade. Quis estar ali dentro, ali ao lado. Quis ser mais mulher ao lado daquele homem de olhos de mar. O sinal já não mais orquestrava a fila de motoristas impacientes e bocas nervosas gritavam na esperança de fazer o trânsito seguir seu caminho.  O trânsito seguiu. Ele seguiu. E eu fiquei ali, imóvel. Ouvi gritos das mãos que me cuidam gesticulando sinais nervosos. Voltei a uma realidade que não pensei viver. Esperei o maestro rubro parar novamente os automóveis. Atravessei a rua. E a vida que poderia ter sido, seguiu sem mim, para uma pausa breve em outro semáforo qualquer.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Rajás

Raja Ravi Varma oil painting.
Há um nada que trepida dentro do peito cansado
A espada enferrujada disputa espaço com adagas de uma rani qualquer
A beleza que sopra o tempo já não se esconde do sol
E a noite que adormece embalada por uma canção antiga
Desperta os anjos que dançam valsas raras no céu

A vida passa como olhos que piscam para a luz
O que é meu pertence ao espaço que não mais habitarei
Há um fim desde o começo

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Sombrinha



Casual

Hessam Abrishami, Closer Hearts

O sangue correndo nas veias avisa ao corpo suado que há vida. O balanço suave dos quadris e das pernas que bailam ao som de uma canção qualquer embala também colchões e tacos de madeira do piso.... frouxos. Uma caneta e um caderno com folhas pautadas em branco preenchem a escrivaninha vazia. Há o ruído que silencia os corpos nus. Há o silêncio que evidencia a presença de narinas que se dilatam. Há um resto de luz do que se diz lua lá fora. Não há chuva, não há vento. Não há carinho, pudor não há. Há de haver um pouco de beijo e há de haver um pouco de amor. Há o sim e há o amanhã. Só não há o limite do querer. Esse eu encontro perdido nas folhas pautadas do caderno em branco sobre a escrivaninha vazia.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Entretecimento

Hope by George Frederic Watts, painted in 1885
A vida não é só breu
Há sangue nas veias
O coração ainda bate

O despertar é moroso
Há barreiras para se entrever o horizonte
Ainda sou por dentro um pequeno vazio

Que a vida venha a cada segundo
E que o tempo passe com ares de agora
Que o chão não se abra e que eu consiga flutuar

Os sonhos permanecem dentro das cabeças cansadas
Ideias que dançam com a noite
O mundo é um balé fora de mim

Carolina Morais

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Abstinência

Hopper, 11 a m 1926

Sol
Silêncio
Não há mais luzes na cidade
O mundo se calou
Ao meu redor
Dor
Sinto sede
Sinto um nada
Um vazio que preenche a sala
Não há mais ar para dois
Sufoquei

Carolina Morais

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Abnegação

Sad Girl
A cabeça não esquece, os olhos não captam brilho algum
O que era doce azedou
O que era vida esmoreceu
E assim se segue um tempo que não volta
Um tempo que nunca foi
Lágrimas temperadas de desamor
Um vão de coisas ditas em um não
Um universo de pecados elaborados por ti
Uma saga
Um fim



Carolina Morais



Fim

Souvenir of Sadness by Glenn Barr
Disseram-me com ares de amargura, em meu ouvido: "é que o mundo que se acaba lá fora, na verdade é o que se quebra dentro de ti"
O sol não tem mais brilho e a ampulheta da vida segue triste por perder seus grãos, um a um. Que toda a tristeza dessa dor vire sonho. E que todo o sonho vire ideia dentro de uma nuvem qualquer. Morri por dentro. Os pássaros não cantam mais. A vida é dissabor. Meu coração, petrificado, virou rocha empoeirada e rachada por tuas palavras que me queimaram a alma. O que antes, dentro de mim era amor, é agora um vulto. Dentro de mim,bem no fundo, vejo e descasco ramos secos. O que restou? -Dor.


Carolina Morais

sábado, 20 de julho de 2013

Para Refletir:

Eu sou uma pessoa que está sempre em movimento. Eu topo muita coisa e adoro aprender coisas novas. Eu adoro planejar e realizar. Porém, aprendo, a cada dia que passa, que é praticamente impossível abraçar o mundo. Melhor abraçar as pessoas, isso sim vale muito mais a pena. Sou metódica demais, e não sei até que ponto isso pode ser bom ou ruim na minha vida. Mas, é preciso ter os dois pés no chão e realizar coisas menores, que, juntas, serão maiores. Essa deve ser a ideia de conjunto, esse deve ser o crescimento que busco para mim. Refletindo, vi que a gente busca mergulhar em águas muito profundas com pouco fôlego. Na ânsia de fazer dar certo,tentamos colocar todo o ar que podemos dentro dos pulmões e mergulhar. Mal sabemos nós que o melhor seria colocar uma quantidade suficiente de ar nos pulmões e mergulhar. Aos poucos exploraríamos o oceano, sem pressa, sem pressão. E cada visita ao fundo do mar seria uma nova descoberta. Cada dia é um início, é uma vida que nasce. Tenho que tentar ser assim e é isso que desejo para todos vocês que, de certa forma são parecidos comigo. É preciso ter foco antes de se ter força, pois de nada adianta chegar a algum lugar onde não se sabe para onde se está indo. Um sábado iluminadíssimo para todos vocês!

sexta-feira, 19 de julho de 2013

A vida em seu pulsar
Morning(1884), Edvard Much
despeja sonhos em latinhas de alumínio

Fechei meus olhos e desejei garrafinhas
de vidro
de sorrisos
de gotinhas de fé

Sinto no peito
carne

Sinto na carne
sangue

E o que era amargo 
virou doce
O passado não é mais tão distante

Amanheci.

Carolina Morais

A ver

Morning Sun, Edward Hopper
Eu quis parar o tempo
mas o tempo me parou
o sorriso virou céu
a vida choveu um mar de razões

A felicidade é maior do que pensamos
a vida é maior que os passos que damos nesse chão
somos do tamanho das nossas ideias

Há um sol
Há um céu
Há um chão
.
.
.

E isso me basta

Carolina Morais


quinta-feira, 18 de julho de 2013

Fôlego

Teus olhos
do outro lado
Frederick Leighton, Flaming June.
de uma vida
de um tempo
de um todo
fechados

Em meio ao breu
avisto
estrelas solitárias
de súbito
sinto
brilhinhos repletos de cor
repleto de azuis

Aguardo
o dia do reencontro
Suspiro
um verde guardado dentro de ti

Unhas
roídas por meus dentes afiados
Arranham a colcha dobrada
Deito-me em um mar
de preguiça
de frio
de amor

Respiro
então
um ar de melancolia
Inspiro
(ou não)
palavras que bailam no vão de meus desejos infantis

Quem contará os minutos
das horas que passarás dentro de mim?


Carolina Morais


terça-feira, 14 de maio de 2013

Inércias

Kennedy,Kasi. Changing Woman.http://fineartamerica.com/featured/
changing-woman-kasi-kennedy.html
Nosso ritmo de vida nos faz perecer numa inércia cíclica: ou somos brisa ou somos furacão. Enquanto furacão, ao alcance do devaneio, optamos por ser brisa. Enquanto brisa, ao alcance da completa paz interior, escolhemos "furacanear". Talvez disso seja feito o ser humano, tão frágil como uma escultura de açúcar, de inércias cíclicas e, consequentemente, de curtos e intensos momentos de epifanias que nos fazem querer ser alguém diferente. Mudamos as marchas e nossa essência, superficialmente pétala e profundamente rocha, muda temporariamente. Não mudamos por completo, pois crescemos imersos em tempo, o que faz com que sejamos feitos de momentos e mudanças.

Carolina Morais

O texto nasceu após a leitura de um texto belíssimo da amiga Ana Valeska. "Furacaneei"

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Breu

http://publiartesjhon.blogspot.com.br/2012/05/pinturas-bellas-al-oleo.html
Diante de tantas cores decorei demais o teu azul
Pintei amarelos que iluminaram tua porta quebrada
Cuspi um verde que transformara tua angústia em dor

Caí, sorri. Chorei ao som do púrpura opaco dos teus olhos
e celebrei a vida com um branco de ausências;

Flexionei os joelhos sobre um vermelho de cristais prateados
e inundei as narinas de um cinza que aos poucos perdia a cor

Dormi um sono de um rosa cansado
e adormeci no breu de uma morte tão negra quanto o nada que existia dentro de ti.

Carolina Morais