sexta-feira, 19 de julho de 2013

A vida em seu pulsar
Morning(1884), Edvard Much
despeja sonhos em latinhas de alumínio

Fechei meus olhos e desejei garrafinhas
de vidro
de sorrisos
de gotinhas de fé

Sinto no peito
carne

Sinto na carne
sangue

E o que era amargo 
virou doce
O passado não é mais tão distante

Amanheci.

Carolina Morais

A ver

Morning Sun, Edward Hopper
Eu quis parar o tempo
mas o tempo me parou
o sorriso virou céu
a vida choveu um mar de razões

A felicidade é maior do que pensamos
a vida é maior que os passos que damos nesse chão
somos do tamanho das nossas ideias

Há um sol
Há um céu
Há um chão
.
.
.

E isso me basta

Carolina Morais


quinta-feira, 18 de julho de 2013

Fôlego

Teus olhos
do outro lado
Frederick Leighton, Flaming June.
de uma vida
de um tempo
de um todo
fechados

Em meio ao breu
avisto
estrelas solitárias
de súbito
sinto
brilhinhos repletos de cor
repleto de azuis

Aguardo
o dia do reencontro
Suspiro
um verde guardado dentro de ti

Unhas
roídas por meus dentes afiados
Arranham a colcha dobrada
Deito-me em um mar
de preguiça
de frio
de amor

Respiro
então
um ar de melancolia
Inspiro
(ou não)
palavras que bailam no vão de meus desejos infantis

Quem contará os minutos
das horas que passarás dentro de mim?


Carolina Morais


terça-feira, 14 de maio de 2013

Inércias

Kennedy,Kasi. Changing Woman.http://fineartamerica.com/featured/
changing-woman-kasi-kennedy.html
Nosso ritmo de vida nos faz perecer numa inércia cíclica: ou somos brisa ou somos furacão. Enquanto furacão, ao alcance do devaneio, optamos por ser brisa. Enquanto brisa, ao alcance da completa paz interior, escolhemos "furacanear". Talvez disso seja feito o ser humano, tão frágil como uma escultura de açúcar, de inércias cíclicas e, consequentemente, de curtos e intensos momentos de epifanias que nos fazem querer ser alguém diferente. Mudamos as marchas e nossa essência, superficialmente pétala e profundamente rocha, muda temporariamente. Não mudamos por completo, pois crescemos imersos em tempo, o que faz com que sejamos feitos de momentos e mudanças.

Carolina Morais

O texto nasceu após a leitura de um texto belíssimo da amiga Ana Valeska. "Furacaneei"

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Breu

http://publiartesjhon.blogspot.com.br/2012/05/pinturas-bellas-al-oleo.html
Diante de tantas cores decorei demais o teu azul
Pintei amarelos que iluminaram tua porta quebrada
Cuspi um verde que transformara tua angústia em dor

Caí, sorri. Chorei ao som do púrpura opaco dos teus olhos
e celebrei a vida com um branco de ausências;

Flexionei os joelhos sobre um vermelho de cristais prateados
e inundei as narinas de um cinza que aos poucos perdia a cor

Dormi um sono de um rosa cansado
e adormeci no breu de uma morte tão negra quanto o nada que existia dentro de ti.

Carolina Morais

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Pássaro Quintana

Pássaro e Onda (1958), de Ger Lataster
E se um passarinho esbarrar em tua casa ao longo do caminho
Abra as portas e janelas
E faça com ele um ninho

Carolina Morais

segunda-feira, 5 de março de 2012

Minha

ANURAAGA, Fulay. Sleeping Woman.
Abri os olhos tão rapidamente que quase não notei que havia acordado de um sono tão inquieto. O barulhinho bom que surgia do teu peito me fez querer dormir mais um pedacinho. Alguns poucos raios de sol batiam em minha fronte com um leve ar de maresia e de alga salgada. Senti os punhos contraídos e minhas pernas envolveram-se nas tuas novamente. A cama denunciava nossos corpos moldados, cansados e belos. O teu cheiro já não era de todo teu e eu me envolvia a cada brisa macia que despenteava teus cabelos emaranhados. Senti-me sozinha por não ter comigo teu olhar penetrante, falando-me verdades inventadas por nós. Capítulos de promessas que se escondem em diários secretos guardados a um palmo de teu ventre doce. Meus seios ardiam em chamas frias e lentas como as primeiras horas dessa manhã morna. Fiquei ali te olhando por alguns longos e poucos minutos. Tu dormias um sono suave e eu te beijei com a minha melhor boca de preguiça e de amor de mulher. Deixa o dia amanhecer lá fora. Aqui dentro a manhã é de raios finos como tua cintura delgada.