quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A Maravilha da Noite

Feeding the Rabbits. Alice in Wonderland circa 1904,Morgan, Frederick
A noite vazia derrama pensamentos vãos em meu colchão.
Vai-se embora o vento frio do fim-de-noite e tudo estremece.
Pelo grito abafado de uma múmia velha e oca
Minha paz interior sussura para mim:

"Quer chá?"

Assombro-me com meus pensamentos (doidos?)
e amasso cogumelos no chão do quarto escuro.
Ao longe vejo o correr da pena ainda quente e
vagarosamente
gotículas de tinta borram todo o escrito de uma noite inteira.

Ouço pássaros em minha janela e
acho que está amanhecendo algum dia por aí,
mas estou cansada demais para abrir as cortinas por trás das vidraças sujas.
Limpo os farelos de biscoito e de bolo de limão
Estou agora pequena demais e não paro de cair
                                                                  cair
                                                                  cair

Carolina Morais

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Volto Já!!

Querid@s,
Greenery in Decay, The Beauty of Urban Decay - Wallcoo
Fica aqui um pequeno e sincero pedido de desculpas! Estou tão sem tempo para atualizar o blog! Ultimamente tenho vivido um período de felicidade quase plena! Estou super bem no trabalho, fazendo tudo o que mais amo; estou em um momento decisivo na faculdade e nas pesquisas acadêmicas, além de crescer cada vez mais em vários outros campos. Estou em um momento de paz familiar sem igual, além de estar muito bem, cercada de amor dos amigos e do namorado. Por isso, a vida real acaba tomando muito tempo, e a felicidade também! Para muitos dos blogueiros que curto, estou sempre lendo vocês, apesar de não comentar em suas postagens. Nós do blogger devemos adimitir que a blogspot passou por um período meio maluco e apenas os seguidores estão postando (e o problema é que às vezes a gente não consegue seguir alguns blogs).

Enfim, quando retornar aviso aqui! No momento estou um pouco fora, mas sabem onde (e como) me encontrar!

Um forte abraço! =)

Carolina Desmondier

terça-feira, 26 de julho de 2011

O "ser" professor

Hoje recebi uma surpresa tão recheada de candura que fiquei emocionada! Minha querida amiga Ana Valeska Maia (autora do livro Tessituras- livro lido pela Mia!) presenteou-me com um texto verdadeiro sobre o professor. Como professores, muitos de nós sabemos como essa profissão, além de desafiadora e imersa em responsabilidades, é também divertida e prazerosa. Vale a pena a reflexão feita por Ana em seu blog O ser em Movimento, o qual também recomendo!
Jean-  Baptiste Simeon, The Teacher 1699- 1779 France, Rococo.
        Sempre vale a pena citar Carlos Drummond de Andrade:


O professor disserta sobre ponto difícil do programa.
Um aluno dorme, Cansado das canseiras desta vida.
O professor vai sacudi-lo?Vai repreendê-lo?
Não.O professor baixa a voz,
Com medo de acordá-lo.

domingo, 3 de julho de 2011

Fim de Tarde

     Inúmeras faces perdidas na pequena imensidão de terra veneziana. Vestidos, luvas e bengalas disfarçadas de mastros-de-auxílio nas mãos calejadas de senhores altos e ossudos. Cenhos franzidos e bocas abertas consoantes a olhos semicerrados de enrugadas pálpebras cansadas. O sol pulsava fraco, e pulsava ritmado a baladas de fim-de-tarde. Tudo é porto em Veneza!
     Gôndolas sobrecarregadas de tecidos a se queixarem do calor, navegam dançantes pelos canais estreitos da lagoa. Gondoleiros entoam canções desconhecidas e tristes (por serem desconhecidas).    
     Há um pequeno caos em cada canto de gota salgada. Crianças gritam e choram, e choram e pedem doces. Máscaras penduradas em barraquinhas ao longo da solitária Piazza San Marco, dominada por pombos de todas as cores em tons pasteis.
Canaletto (Giovanni Antonio Canal):
"The Regatta seen from Ca Foscari", 1727 , London, National Gallery
 
     Uma moça de chapéu, atraída pelo aroma doce do café amargo italiano decide entrar no Gran Caffé Quadri. Senta-se e pede um cappuccino. Um belo moço de nariz afilado, ao ver a moça sozinha pensa o que seria de seu dia após um beijo ou dois. Fecha os olhos e toma um gole de sua água com gás, desfazendo-se de pensamentos tolos à luz do dia. Uma chuva fina banha Burano e molha as finas rendas locais. As gôndolas retornam e as pessoas embarcam em trens confusos. A praça ganha espaço e os pombos retornam aos seus ninhos em ilhas vizinhas.
     À sombra da lua há calma, paz e um centímetro a mais de água na lagoa veneziana. A cidade dorme para acordar no dia seguinte.


Carolina Morais

sábado, 25 de junho de 2011

A lágrima

Cada um com seu pranto e em cada canto uma canção qualquer.
Os dedos trêmulos trovejaram de desejo e de dor
...e o que foi um dia  de sol gelou o vento manso vindo do nordeste... 
e borbulhou de contentamento...
...e virou saudade...
depois de tudo respirei, fechei os olhos
e
.chorei.
.         .


Girl and Tear - GUAYASAMIN Ecuador abstract Painting


Carolina Morais

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Assassinos de Momentos

Miró, Joan. Milano

As coisas só morrem para nós quando nós as matamos de fato. Caso contrário, continuam lá e cá. Dentro e fora de nós mesmos. Somos todos, no fundo, assassinos de lembranças e sentimentos. Se não as matamos, vivemos carregando sacolas repletas de arrependimentos e lágrimas de tristeza nas costas. Somos todos, então, assassinos de lembranças e momentos.

Carolina Morais

O livro de Mia

Mia acordou cedo, fez café forte e esquentou o pão no forninho elétrico. Cortou pedaços de maçã como quem corta tomate; com calma e destreza. Misturou banana amassada e uns poucos pedaços de melão com suco de laraja e mel em uma taça de vinho grande e comeu com a graciosidade de uma garota propaganda de condicionador ao sorrir contra o vento.
Capa do livro Tessituras em contos, crônicas, poesias e imagens.  
Ana Valeska Maia, Marcia Sucupira e Maíra Ortins. 
Expressão gráfica editora, 2010.
O pão estava no ponto. A faca deslizava no pote de requeijão light e corria sobre o carioquinha disforme. O cheiro era arrebatador, assim como o cheirinho do café vindo do móvel que ficava ao lado da geladeira; a cafeiteira anunciava as últimas gotas a cair no copo acrílico transparente. Pacientemente, Mia olhava cada gotinha que se despedia do copo superior da maquininha de fazer café. A mocinha então,esperou que todas elas se transferissem para o copo inferior, que já colecionava gotinhas por 5 minutos. Colocou o café em uma xícara azul-bebê, estampada com rosinhas amarelas. O pires, verde-limão, dava um ar descontraído ao café de todos os dias na casa de bonecas de Mia. Ela pegou o pão e o café e foi para a varanda. Buscou o livro e se sentou na cadeira de palha cor-de-rosa.Colocou o café na mesinha ao lado da cadeira e o pão ficou ali, geometricamente enquadrado em sua pequenina mão esquerda, envolto por um guardanapo lilás e branco. Mia repousou os pés no parapeito da varanda e sentiu a brisa fria das 6 da manhã percorrer seus dedos dos pés. Comeu um pedaço do pão, dois, três. O café estava quente demais e o vento gelado o esfriava sem pressa, soprando as beiradas da xícara cheia de líquido negro. Ela sentiu uma calma de parar o tempo. Pegou o livro novo com a mão direita. Olhou a imagem da capa: uma garota de sobrancelhas grossas e olhar fixo, com o corpo imerso em um mar absolutamente azul. Ficou ali a admirar a capa por minutos longos. O pão tornara-se migalhas no colo de Mia e um pássaro curioso pousou em sua coxa esquerda, comendo os restinhos do alimento da manhã. Mia achou aquilo lindo. Limpou a mão no guardanapo e tomou um gole do café; ainda quente demais para descer pela garganta seca. Abriu o livro e se deliciou com poesia pura. Quando a poesia teve fim, começaram os contos, as crônicas e as imagens. Mia adormeceu na varanda e sonhou com a certeza de que naquele momento, tinha um livro para "chamar de seu". O dia raiou enquanto o café frio refletia o sol quente e o ar úmido do dia seguinte.



Carolina Morais