Inúmeras faces perdidas na pequena imensidão de terra veneziana. Vestidos, luvas e bengalas disfarçadas de mastros-de-auxílio nas mãos calejadas de senhores altos e ossudos. Cenhos franzidos e bocas abertas consoantes a olhos semicerrados de enrugadas pálpebras cansadas. O sol pulsava fraco, e pulsava ritmado a baladas de fim-de-tarde. Tudo é porto em Veneza!
Gôndolas sobrecarregadas de tecidos a se queixarem do calor, navegam dançantes pelos canais estreitos da lagoa. Gondoleiros entoam canções desconhecidas e tristes (por serem desconhecidas).
Há um pequeno caos em cada canto de gota salgada. Crianças gritam e choram, e choram e pedem doces. Máscaras penduradas em barraquinhas ao longo da solitária
Piazza San Marco, dominada por pombos de todas as cores em tons pasteis.
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Canaletto (Giovanni Antonio Canal):
"The Regatta seen from Ca Foscari", 1727 , London, National Gallery |
Uma moça de chapéu, atraída pelo aroma doce do café amargo italiano decide entrar no
Gran Caffé Quadri. Senta-se e pede um cappuccino. Um belo moço de nariz afilado, ao ver a moça sozinha pensa o que seria de seu dia após um beijo ou dois. Fecha os olhos e toma um gole de sua água com gás, desfazendo-se de pensamentos tolos à luz do dia. Uma chuva fina banha Burano e molha as finas rendas locais. As gôndolas retornam e as pessoas embarcam em trens confusos. A praça ganha espaço e os pombos retornam aos seus ninhos em ilhas vizinhas.
À sombra da lua há calma, paz e um centímetro a mais de água na lagoa veneziana. A cidade dorme para acordar no dia seguinte.
Carolina Morais