quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A Mulher e o Homem [Parte 1]

A casa não mais abrigava a mulher sozinha. A varanda virara bar e o bar virara casa por uma única noite perdida (ou achada, talvez). A mulher caminhou em passos longos ao banheiro. Vestiu um vestido negro de seda. Prendeu os cabelos como lhe aprazia, de qualquer jeito. Mechas soltas caíam-lhe pela nuca embebida em um perfume barato. O colar fazia-lhe uma marca verde em tono do pescoço. A jóia barata dançava em sua pele manchada. E ela continuava linda. A pele era doce e suave. Parecia uma mulher sem máculas. De manchas, apenas as deixadas pelas pérolas baratas que ganhara, ou comprara...as roubara talvez. O vestido lhe vestia em um tom prototipicamente perfeito.
Fabian Perez, Letizia.
Caminhou em direção ao balcão. Nada pediu. Um moço ergueu uma taça e veio oferecer-lhe um líquido suave. A moça aceitou com um sorriso que em nada demonstrava felicidade. Tomou o vinho como quem toma um copo de vinagre azedo. E gostou. E sorriu. E deixou uma lágrima cair-lhe vagarosamente, como quem quisera sofrer por algo que não imaginara o que era. De longe viu um homem, sentado na calçada do bar a pensar em algo que não se conseguia decifrar. Ele parecera sofrer. Ele era tão bonito. Alvo, loiro e alto. E sozinho. Era o homem mais sozinho que a mulher já avistara em poucos meses, ou anos. Ou, talvez, em sua vida... vazia como seu ventre. Era um homem tão incomum. E continuava a ser um homem, sozinho e sentado numa calçada suja fedendo a lixo e chuva.

Carolina Morais

7 comentários:

Tiago disse...

Obrigado Carolina.

Sabe, também gostei de seu espaço. Li seu texto e assim, meio como um susto, me peguei sozinho sentado numa calçada suja fedendo a lixo e chuva. Então lembrei que o lugar do abandono e da sujeira também serve pra gerar flores. Uma latrina largada pode ser esconderijo de violetas. A poesia sempre ocupa lugares esuqecidos.

E fiquei contente.

Simples,
T

Machado de Carlos disse...

O homem estava sozinho... eis que lhe parece uma mulher linda, com pérolas falsas e gosto de vinho barato na boca!...
Belíssimo texto! Que bom ler frases perfeitas, lindas como as suas.
Lá no camarim, talvez a bailarina fosse aquela mulher após um evento de dança, não é? (Risos!...)
Que bom que você me visitou, fico sempre feliz com uma visita tão bela quanto a sua.
Beijos Meus!...

Michele P. disse...

Carol

Senti melancolia, abandono e desilusão nas personagens... Mas, o texto me pareceu delicioso. Bom de ler, com as palavras escolhidas, perfeitas, que se encaixam.

Um abraço!

dade amorim disse...

Uma bonita prosa poética, uma escrita que prende a atenção.
Gosto do que você escreve.

Beijo pra você.

flaviopettinichiarte disse...

MuitoBom.uma leitura rápida de um cotidiano para olhares atentos..o restoé cenografia para quem gosta!! rsrsr..MuitoBom ..gostei Muito!!

Lara Amaral disse...

Preciso dizer que seus contos me pegam de jeito. Bons demais!

Beijo, flor.

Paula Figueiredo disse...

Olá Carol! Quem não é só. Ser só é poesia e realidade. Adorei o conto assim como o seu comentário de o ego morrer quando se alcança a humildade. Por isso gosto de mexer com a palavras morte: morte do ego é elevação do SER, do SElF. E vamos confiar na vida! :) Bjs!
Adorei a visita e seu blog. Voltarei mais.