terça-feira, 12 de outubro de 2010

A Varanda

Fabian Perez; Balcony at Buenos Aires IV
Debruçou-se no parapeito descascado da varanda. Ventava um vento frio e bom. Ela pegou um livro sobre qualquer coisa da vida, sobre alguém que acha que entende de gente, sobre alguém que finge ser feliz através de uma experiência que poderia ser de alguém qualquer, não dela. Ela acendeu um cigarro de canela e alcançou um Moscatel de Lagos, doce e licoroso. Derramou delicadamente na taça limpa, alva. O som do vinho a cair na taça soou como música. Ouviu o vento de longe. Uma folha caiu em seu colo. Um gole desceu pela garganta, antes seca, antes cheia...de nós. Sentiu um arrepio e um aperto no peito. Sentiu saudades da família que não tivera, do livro que não escrevera e da árvore que não plantara. Quis ser ídolo um dia. Quis lutar. Desistiu e tentou viver. Jogou o livro no chão e olhou para a obra arregaçada na lama, sozinha. Ali era o seu lugar. Tragou o que tinha para tragar, bebeu  que tinha para beber. Iria novamente para a cama, sozinha. Amanhã? -Um novo dia, talvez. E a varanda continuaria a soprar folhas secas em seu colo vazio.

Carolina Morais

10 comentários:

Michele P. disse...

Este texto, com toda a sua beleza, transmite um pouco de desespero. É como se a moça na varanda, de repente, se desse conta de sua solidão.

Um abraço!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Um excelente mini-conto. Muito bom, ainda mais quando a gente sabe que a situação é oura ficção.

O receio de não fazer, de não ter, bem, isso é verdade e humano, minha nega.

Mas deixa te dizer que a descrição do livro me lembrou o Comer, Razar e Amar. Que achei meio que um porre, assim como literatura.

Filme é massa, legal, mas livro de gente que entende do que a gentefina sante.... ai, ai, ai...

Machado de Carlos disse...

Um momento de tédio. Desses momentos em que nós tentamos fugir de nós mesmos através de uma tragada doce de menta, ou um teor alcoólico de fino trato. Talvez falte algum tempo ainda para escrever, plantar, etc...
Estou muito feliz porque você me leu e deixou um brinde! Obrigado!
Os abraços são recíprocos!

Sil.. disse...

Carol,

Eu muitas vezes me senti essa moça da varanda.
Passado, ainda bem!

Te amooooooooooo, Carol!

PS: Tem um album no meu orkut, "Metades adoradas de mim".
São pessoas especiais e essênciais na minha vida.
Posso por uma foto sua?

Um beijoooooooo

Jorge Manuel Brasil Mesquita disse...

Em cada solidão que se vive, há um todo que não se pode desfazer em pedaços de vida esquecida. O dia a dia é uma relaidade para ser vivida com o deslumbramento que se encontra entre a natureza humana que se mistura com a beleza da natureza, ela mesmo.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Lisboa, 13/10/2010

Crônicas do Cotidiano disse...

Perfeito!

E não é que deixamos as chances escaparem hein?! Bah disseste tudo...
Bjkss

A.S. disse...

Carol...

Um delicioso texto, pleno de emoções!!!


Beijos
AL

flaviopettinichiarte disse...

realmente fforte..a imagem do olhar dela sobre o livro na lama é de arrepiar...o vento continuava e um fio do cabelo já caia na fronte dela...amanhã?oque importa o amanhã para os que não tem sequer o hoje!
Muito bom!! me visita!

Lara Amaral disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lara Amaral disse...

Moça querida, mas vc é arretada nas prosas, hein? Prendeu-me num só fôlego.

E esse artista plástica aí eu não conhecia, que lindas telas. Vi uma no seu facebook tbm e curti lá.

Beijinho.